A Carência do Mundo

Quando as estruturas sociais deixam de oferecer cuidado, a carência aumenta.

Está se sentindo carente? Quer atenção? Projeta isto nas pessoas mais próximas?

Em tempos de Pandemia e de descontrole social a Carência brota com intensidade. Não só pelo medo de morrer, de sofrer, mas também por conta da ausência das estruturas sociais.

Ter um plano de saúde não é a mesma coisa que receber um abraço, mas é um conforto. Saber que se você ficar doente alguém vai cuidar de você dá um alívio, uma tranquilidade.

Sair pelas ruas e passear sem destino sabendo que existe uma polícia que vai estar atenta às pessoas que podem te ferir é um sentimento bom. Posso passear tranquilo, olhar o mundo e voltar para casa.

Trabalhar numa empresa que estará atenta caso você esteja com problemas é tranquilizador também. Caso eu esteja espanando ou passando por problemas pessoais posso contar com um grupo que poderá me dar suporte caso as coisas não funcionem como o esperado.

Passar por dificuldades financeiras ou ficar sem perspectivas sabendo que existem representantes políticos que estão inventando estratégias e implantando recursos para que o desemprego e a crise econômica diminuam também sossegam um pouco nossa alma.

Como já deve ter percebido, todas estas estruturas sociais acima que poderiam nos deixar um pouco mais tranquilos estão falhando miseravelmente. E estranhamente todas parecem ter uma justificativa plausível, que foge de sua capacidade de sanar ou mesmo minimizar o desconforto de cada um que está confinado em Pandemia.

Esta Falência Social é democrática, atinge a todos. Mas o impacto é diferente em cada um.

No meu caso, tenho percebido uma carência gigantesca de pessoas ao meu redor. Todo mundo quer atenção.

Meu filho pequeno quer brincar, mas não tenho ânimo para fazer de conta que sou o Roberto Benigni no A Vida é Bela e disfarçar que não estou passando por dificuldades, me falta energia. Ao mesmo tempo não quero me prostrar e me enfiar na caverna até o monstro passar. O que fazer então?

Quando entro nas redes sociais a maioria das pessoas parece sentir o mesmo: Não sabem o que fazer, o que inventar para sair desta situação. E todos, sem exceção, estão carentes.

Carentes de perspectivas, carentes de saúde, carentes de oxigênio, carentes de diversão, carentes de abraços, carentes de estruturas sociais que possam mitigar um pouco o sofrimento de se sentir sozinho no mundo, sem ter para onde correr.

Estamos carentes de mundo, de solidariedade, de amor, de tolerância, de tudo o que aprendemos que é importante para uma vida minimamente não miserável.

E projetamos nos outros esta carência, o que gera ainda mais conflitos e insatisfações.

Hoje completa um ano da primeira morte por Covid no Brasil, e nada mudou. Pessoas na rua fazendo de conta que o vírus não existe, governos desgovernados, saúde em colapso. Nada de abraços, de confraternizações, de celebrar a vida.

Sei que não sou só eu que sinto isto, mas sei também que muitas pessoas não estão nem aí para nada, o que amplifica ainda mais o sentimento de solidão e carência.

A vida é isto aí então? Alguém tem esperança que as coisas melhorem?

Alessandro Bender

Março 2021

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pesquisador do comportamento humano, tendências e arte

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