Banzo e o Novo Sentimento de Exílio

Impressionante o tamanho do ódio que a onda neo-reacionária tem de Jean Wyllys. Não bastasse persegui-lo (vale lembrar, um dos únicos representantes eleitos assumidamente gay e defensor das causas LGBTQ+), criar falsas noticias, disseminar campanhas, utilizar palavras pejorativas para se referir a ele, agora que ele anuncia que vai desistir do mandato o ódio continua. Criam teorias conspiratórias, ele estaria envolvido na tentativa de assassinato do presidente e tentaria fugir do Brasil para não ser punido. De acordo com estas pessoas, o ex-deputado não deve sequer ser autorizado a sair do Brasil: Precisa pagar pelo que fez.

ódio pelo Outro, ódio pelo Diferente. Este é o Brasil de 2019.

O sentimento da maioria das pessoas moderadas é de, no mínimo, incômodo. E é sobre este sentimento que gostaria de falar.

Quando os africanos eram desterrados e trazidos para o Brasil na época da escravatura (sim, ela existiu, e até hoje não foram implantadas devidamente políticas corretivas para a população negra), muitos destes indivíduos obrigados a ser escravos desenvolviam uma tristeza e depressão que levava ao suicídio. Era chamada de Banzo.

Banzo

substantivo masculino

Processo psicológico causado pela desculturação, que levava os negros africanos escravizados, transportados para terras distantes, a um estado inicial de forte excitação, seguido de ímpetos de destruição e depois de uma nostalgia profunda, que induzia à apatia, à inanição e, por vezes, à loucura ou à morte.

Mais do que um sentimento de estranhamento, comum aos povos migrantes, o Banzo é um desconforto profundo com a realidade em que se está inserido, aliado a um sentimento de impotência de conseguir sair daquela condição.

2019

Os brasileiros que não estão alinhados com um novo modelo de sociedade proposto pela linha de valores morais proposta pelos novos reacionários passou pelo sentimento de estranhamento. De se olhar e pensar: "Será que é possível mesmo que estas pessoas estejam propondo uma sociedade deste jeito? Homofóbica, Racista, Extremista, Reativa, Prepotente, Unidimensional e Intolerante."

Para onde você olhar vai ver gente disposta a linchar quem não concorda com seu pensamento. Há inúmeros bons artigos sobre isto e pretendo não me estender nisto.

Mas depois do choque do estranhamento, vem a desolação e o sentimento de impotência. Uma sensação de que não vai ser possível alterar este cenário. De que estas pessoas se descolaram tanto da realidade para poderem justificar seus ódios que nada vai adiantar. E surge o Banzo Brasileiro Contemporâneo.

Estamos diante da iminência de um Estado Totalitário, que se vale da desinformação e da confusão de dados para definir o que é verdade e o que não é.

Teorias conspiratórias se conectam com a superficialidade das pessoas e o desinteresse em averiguar fontes e tudo se torna "Opinião". O "Eu acho" é mais importante do que a veracidade dos dados.

As pessoas, ao se sentirem ameaçadas, não sabem como reagir. E daí o Banzo.

Imagino que muitas pessoas entrarão em depressão, em especial as mais sensíveis às questões sociais e às injustiças.

Como desafio pessoal e individual, acredito que precisemos nos reunir e nos organizar para conversar sobre isto. Nem todos terão a força de encarar seus próprios medos e descobrir estratégias para erguer os ombros, estufar o peito e continuar com dignidade e orgulho de suas verdades, mesmo com o ódio espalhado pelo ar e pelas almas das pessoas ao redor.

pesquisador do comportamento humano, tendências e arte

pesquisador do comportamento humano, tendências e arte