Beyond Van Gogh?

Exposição Beyond Van Gogh no Morumbi Shopping

Beyond Van Gogh (Além de Van Gogh) está em cartaz no Morumbi Shopping, até julho de 2022. Aparentemente uma experiência imersiva na estética de Vincent Van Gogh, a instalação pode ser analisada de uma maneira mais ampla. Tudo ali é superfície, superficial.

Por módicos R$ 160,00 você pode obter ingressos para caminhar dentro de um espaço vazio, mapeado digitalmente onde uma série de projeções simulam elementos da obra de Van Gogh.

Cito aqui um trecho do livro O Universo das Imagens Técnicas, de Vilém Flusser, que abre meu novo livro, ainda inédito:

Uma vez absorvida toda a história pelas imagens, uma vez transcodificada a história em programa, a circulação entre imagem e homem cairá efetivamente em entropia, e o manto do tédio mortal se espalhará sobre a sociedade.

(Não por acaso o subtítulo do livro de Flusser é O Elogio da Superficialidade)

Me dou total liberdade de analisar a instalação sem precisar visita-la. A estrutura, a lógica dela é que me interessa. A começar pela simplificação da experiência.

Byung Chul Han comenta em No Enxame sobre a diferença entre Afeto, Emoção e Sentimento, estabelecendo um gradual de complexidade, do menor ao maior. Se Afeto é aquilo que nos afeta (ouvir um grito, por exemplo), Emoção é algo mais refinado, como por exemplo Surpresa, Encantamento. Já Sentimento seria ainda mais complexo, como Catarse ou mesmo Empatia.

A instalação Beyond Van Gogh busca o Afeto, impactar sensorialmente os visitantes. Tira-los do torpor e do tédio, como uma montanha russa ou um salto de paraquedas. Sair da monotonia através da tecnologia e das imagens, da mesma maneira que um aplicativo de jogos em seu celular.

"Que legal seria se pudéssemos mergulhar na tela de um celular gigante", talvez seja a frase que esteja borbulhando na cabeça dos potenciais visitantes. Mas por que, depois de mais de dois anos de pandemia e isolamento social alguém preferiria mergulhar ainda mais no universo das imagens do que simplesmente sair e passear no parque, ver as árvores e os pássaros?

Porque já vivemos num universo mediado pelas imagens digitais. Talvez a tridimensionalidade de uma experiência no parque acabasse gerando não Afetações, mas envolvesse Emoções e Sentimentos. Talvez não queiramos mais este tipo de envolvimento, apenas a sensorialidade que as imagens nos oferecem.

Baudrillard adoraria uma exposição como esta. Em seu O Efeito Beaubourg o filósofo já alertava, diante da espetacularização da arquitetura do museu, que os visitantes iriam às exposições para verem o museu e a si mesmos, portanto a exposição nem seria necessária.

É o caso de Beyond Van Gogh: Não é necessária nenhuma exposição, nenhuma contextualização. Basta o impacto, a circulação das pessoas e a geração de mais imagens planificadas a serem distribuídas nas redes sociais.

Aproveito para agradecer ao publicitário que criou o nome da instalação. Estamos Além de Van Gogh, mas não como ele imagina em sua soberba. Chegamos num ponto em que não precisamos mais de Van Gogh, de sua complexidade, de sua poderosa narrativa e trajetória. Estamos além disto. Queremos apenas seus padrões, formas e cores.

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pesquisador do comportamento humano, tendências e arte

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Alessandro Bender

Alessandro Bender

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