Quando o mundo torna o complicado em algo ainda mais difícil

Esta é a história de Sílvia e Felipe

Sábado, 23h, centro de SP. Um homem e mulher brigam, gestos ameaçadores do homem fazem meu grupo de amigos parar.

Na sexta tinha visto algo parecido, o casal gritava, a mulher alcoolizada queria ir embora, o cara estava prestes a agredir a parceira. Fiz o que geralmente faço: Simplesmente parei e fiquei perto, mostrando explicitamente que tinha alguém que poderia intervir caso a coisa esquentasse. O cara ao me ver começou a afinar e a situação acalmou.

No caso da dupla do sábado ficamos por perto mas o papo só piorava. A mulher, bêbada, o cara, drogado, gestos largos davam a entender que daqui a pouco um ia meter a mão no outro.

Sentei para conversar com a mulher, Sílvia, sentada no chão. Ela pedia abraços, e revezamos em abraça-la.

A única coisa que a Sílvia nos dizia era "Cuida do meu filho, ele vai se matar".

  • Eu sou roqueira, sou maloqueira, sou do centro, me abraça? Meu filho está muito nervoso, ele é um bom garoto, eu sou maloqueira, hoje é Halloween?

Sílvia pedia para cuidarmos do seu filho, e descobrimos que quem a acompanhava era o Felipe, seu filho.

Suas coisas estavam espalhadas pelo chão, parece que o Felipe tinha jogado tudo no chão. Uma sacola com um tênis novo, uma bolsa, bilhetes do metrô e algumas moedas.

  • Ele vai se matar, cuida dele para mim? Hoje você cuida dele para mim?

Minha colega de passeio foi ficar com a Sílvia enquanto eu fui conversar com o Felipe, que estava muito, muito alterado.

  • Eu quero morrer, vou me matar hoje, não aguento mais minha mãe. Toda vez é assim, ela vem e bebe um monte, faz eu passar por isto, e no dia seguinte faz de conta que nada aconteceu. Eu não aguento mais. A gente não tem nada, eu fui estudar para tirar minha mãe e meu pai desta situação, fiz curso de mecânica de avião, eu estudei muito, eu trabalho desde os dez anos, para tirar minha família desta situação, eu não aguento mais minha mãe, ela sempre faz isto, não aguento mais. Ela gastou todo o dinheiro, não temos nem dinheiro para pegar o metrô.

Eu e meu grupo de amigos pegamos algum dinheiro e entregamos para o Felipe, que jogou tudo para o alto e gritava.

  • Meu tênis está todo destruído, não tenho tênis para poder arranjar um emprego. Pedi para minha mãe pegar um resto de dinheiro que ela tem do FGTS e comprar um tênis, daí depois de comprarmos ela bebeu o resto do dinheiro. Na minha casa não tem sabonete, na minha casa não tem desodorante, eu não aguento mais isto. Eu queria estudar, queria estudar sociologia, para poder entender o que está acontecendo comigo, com minha família, queria ser sociólogo. Eu não entendo. Eu trabalho, trabalho, estudo, estudo e não consigo. Eu vou me matar.

Felipe tem 16 anos, saiu com a mãe para comprar um tênis e tentar se vestir melhor para conversar com o padrasto de sua namorada. Ficar apresentável para arranjar um trabalho. Estava revoltado e com vergonha, da mãe, de não conseguir sair de sua condição, de que seus esforços não estavam levando a nada, e de não ter dinheiro nem para voltar para casa.

Felipe estava com vergonha de ter começado a usar drogas (todas, segundo ele), de ter de receber ajuda de desconhecidos na rua, de não conseguir se conter com a mãe, de ter de ser carregado para dentro do metrô, de não ter perspectiva nenhuma.

(a imagem é meramente ilustrativa, ok?)

pesquisador do comportamento humano, tendências e arte

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