Como obter mais prazer no dia-a-dia?

Alessandro Bender
4 min readMay 28, 2023

Estudar artes, linguagens e cultura é uma ótima opção para aumentar seu prazer

Para você aprender a tomar vinhos, recomendo participar de degustações com amigos que conheçam as características e a "gramática" do vinho.

Como assim "gramática"?

Se você não sabe o que é terroir ou não está atento aos pontos em sua boca onde poderá sentir os diferentes sabores, quando tomar um gole de vinho só vai poder dizer se gostou ou não gostou. Uma resposta binária, portanto empobrecida.

Por que empobrecida?

Porque você tem poucos dados para tomar sua decisão de gostar ou não gostar. Com poucos dados, a chance é de ter uma opinião "de superfície", portanto superficial, rasa. Afinal de contas, o Bom ou Ruim estão sempre associados a um processo de comparação. Bom em relação a que?

Arte e Cultura

A lógica é a mesma. Podemos apreciar uma música ou um filme através do contato binário, gostei/não gostei. Mas a experiência vai ser muito mais saborosa se conhecermos um pouco de música ou um pouco de filme. Vou dar um exemplo de cada um para ampliar seu prazer quando ouvir ou assistir estas duas obras:

Go Go Penguin

Este trio de jazz de Manchester, Reino Unido, incorpora de maneira sutil a música eletrônica em suas composições. Como? Na estrutura da música.

Quem conhece música eletrônica sabe que o uso sistemático de sequenciadores e samples nos acostumaram a melodias circulares. Rap e Trap também usam loopings para construir músicas. E onde o Go Go Penguin explora isto? Nos instrumentos acústicos clássicos de jazz, piano, baixo e bateria.

Ouça esta música deles e perceba como o baixo acústico e o piano revezam nos loopings, ao invés de solarem ou construírem apenas melodias sofisticadas. A repetição de trechos dialoga com melodias de jazz.

Sabendo disto, imagino que sua experiência com a música abaixo vai ser diferente.

Sangue e Ouro

Um filme que está disponível nas plataformas de streaming (no momento na Netflix), que parece com um filme de guerra, tem toda a cara de filme nazista, mas não é nada disto. É um western.

Repare na estética do cartaz, lembra algum diretor americano?

Existem alguns indícios no filme que ajudam a entender as referências da trama. É um filme alemão, que acontece no final da segunda guerra, cheio de nazistas.

Letreiros

Os letreiros no começo do filme usam uma tipologia muito usada nos anos 1960/70, com uma paleta de cor que remete aos western spaghetti, filmes de caubói realizados na Itália mas com aquele tempero italiano, exagerados e dramáticos.

Os western spaghetti não eram considerados cinema de qualidade, eram entretenimento de segunda linha, mas tinham seu público. Os estúdios romanos ganharam um bom dinheiro imitando os filmes de caubói de Hollywood. Claro que alguns clássicos surgiram neste formato, mas a maioria era considerado entretenimento barato.

A Pequena Vila saqueada pelos Homens Maus

Outro indicador de que não é um filme sobre guerra é a trama. Uma pequena vila, com seus tradicionais personagens — prefeito, padre, dono de estalagem, mocinha corajosa — é invadida por bandidos, que buscam descobrir onde está enterrada uma fortuna em ouro.

Os Sete Samurais, de Akira Kurosawa — 1954

Akira Kurosawa, gênio do cinema japonês, também fez filmes usando a lógica estrutural dos faroestes. Os Sete Samurais, de 1954, é um deles. Mesmo esquema: vila cercada, bandidos bem malvados e cruéis, um grupo de pessoas ousadas tentam reaver a vila dos malvadões.

Reconhecendo os elementos

Quando for assistir Sangue e Ouro, identifique os elementos que vão além da historinha ou do figurino, e perceberá que está assistindo um filme que opera numa linguagem contemporânea: É um filme no estilo do Tarantino. O diretor de cinema Quentin Tarantino era apaixonado por filmes western spaghetti desde quando trabalhava de balconista numa videolocadora. É uma estética que começa nos clássicos de bangue bangue dos anos 1920/60, reinventada pelos italianos nos anos 1960/70 e depois reciclada pelo Tarantino nos anos 1990.

Cultura serve para quê?

Voltando ao título deste artigo, se cultura não servir para mais nada, pelo menos serve para aumentar o nosso prazer e obter mais recursos para curtir mais e mais camadas das coisas que estão ao nosso redor.

Mais repertório, maior capacidade de análise, e maior capacidade de aproveitar as coisas.

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