O que pode vir depois da Guerra de Fake News

"Ao desmoralizar tudo e todos, você também será desmoralizado"

Tenho acompanhado, como todos, os dilemas da pós-verdade. O processo de desconstrução da verdade versão express foi mais ou menos assim:

> Sempre existiram as falsas notícias (Fake News) visando atacar opositores e desqualificar o discurso ou as ideias de alguns ou mesmo valorizando qualidades inexistentes de outros. Temos homenagens inventadas a pseudo-heróis registradas desde a Roma Antiga.

“O imperador Septímio Severo, nascido em Leptis Magna e que nada tinha a ver com seu antecessor, o malogrado Cômodo, para legitimar seu poder decidiu espalhar a ideia de que ele próprio era o irmão perdido de Cômodo, filho ilegítimo de Marco Aurélio, e por isso a pessoa mais adequada para ocupar o cargo. Nas primeiras moedas que cunhou, se fez retratar com traços muito parecidos com os de Marco Aurélio”. Néstor F. Marqués

> As notícias falsas ganham corpo e metodologia no Século XX, mais especificamente pelo ideólogo da comunicação nazista, Joseph Goebbels, autor da clássica frase "Uma mentira dita mil vezes se torna verdade".

Joseph Goebbels

> No Brasil a classe política sempre soube trabalhar inventando feitos e supervalorizando ações em busca de votos. E por incrível que pareça quem mais investiu nesta distorção dos fatos foi o Partido dos Trabalhadores com a construção da aura de Lula. A pedra fundamental do PT sempre foi a figura do Homem do Povo e dos valores que ela emana.

É uma estratégia correta do ponto de vista de Marketing Eleitoral. E Lula é, de longe, o líder com maior empatia que surgiu no Brasil desde Getúlio Vargas.

Imagem ilustrativa, não achei uma imagem do evento

Tive a oportunidade de assistir a fundação do PT nos ombros de meu padrasto Luiz Antônio Cagnin num estádio de futebol nos idos dos anos 1980. Lula têm um carisma incrível, e um dom da palavras únicos nos dias de hoje. (Tanto que faz muito sentido o seu antagonista, Jair Bolsonaro usar e abusar do silêncio como estratégia. Bolsonaro não têm nem de perto o dom da palavra que Lula têm).

Mas…

Lula fumando um Cohiba e tomando Whisky

A prática do poder começou a entrar em conflito com a imagem construída e emanada por Lula. E foi aí que o discurso se descolou da realidade por completo. Era necessário manter a aura de Homem do Povo naquele que já não vivia mais daquele jeito.

José Mujica e seus cachorros vira-lata

Se você tem alguma dúvida basta comparar Lula ao Mujica, ex-presidente do Uruguai. Mujica, antes, durante e depois do mandato manteve um cotidiano simples, sem grande mudanças comportamentais. Continuou com aquele jeito de roceiro que sempre teve. (Coisa que Bolsonaro têm e que é um dos seus grandes trunfos, basta perguntar para os seus fãs que verá a palavra "autêntico" aparecer mesmo em situações exóticas como quando ele faz elogios à torturadores ou se declara machista).

Bolsonaro comendo um cachorro quente na rua

A Estratégia? Fake News contra Fake News!

Foi assim que começou a guerra entre o resíduo de verdade que ainda sobrava. Durante a campanha a comunicação do candidato Bolsonaro focou em criar notícias falsas contra o PT e os opositores em geral. Isto tudo turbinado pela tecnologia, um tipo de notícia P2P. Os grupos de Whatsapp funcionaram como Torrents espalhando para todos os lados notícias das mais absurdas (mais absurdas até as que negam qualquer envolvimento de Lula em qualquer ato ilícito, tentando transformar o líder do PT num mártir de campanha insidiosa contra sua reputação, que cá ente nós já estava totalmente desconectada da realidade da pessoa.

É bom lembrar que as notícias falsas só existem por existirem pessoas que estão dispostas a acreditarem nelas. Há uma relação dialética entre as notícias e um público interessado em crer nelas.

A Narrativa Ficcional desenvolvida por Bolsonaro levou a melhor, e ganhou da narrativa do PT. E instalou-se uma nova situação.

Estamos no segundo mês do governo Bolsonaro e estranhamente a campanha presidencial continua

Se você quiser saber quais os planos de governo, quais projetos e quais os próximos passos da nova gestão, pode ficar sentado esperando. Ninguém tem a mínima idéia do que vai acontecer.

Mas se quiser saber sobre a opinião do presidente sobre a Venezuela (os comunistas), sobre se meninos devem vestir azul e as meninas rosa, vai encontrar milhões de pessoas debatendo o tema.

Há uma necessidade de consolidar uma nova verdade, mas infelizmente (para o novo governo) ela ainda não se tornou oficial, pelo fato das pessoas estarem em dúvida, por não saberem mais em quem acreditar.

A culpa não é da Contra-Campanha de Fake News de Bolsonaro contra o Santo Homem Lula, mas sim pelo fato de que as pessoas não sabem mais no que acreditar. Resumindo, um discurso não suplantou o outro, mas passou a conviver com o anterior, de uma maneira esquizóide, como se fossem duas realidades paralelas.

A Igreja Católica implantava sua nova cultura na época da colonização da seguinte maneira: queimavam os templos "pagãos" e construíam em cima deles igrejas cristãs. Nada a favor, vale a reflexão principalmente pelo fato de gerar um vazio existencial nas populações ameríndias. Ouvi do próprio Orlando Villas-Boas a seguinte frase:

"A nossa sociedade não implantou uma nova cultura aos povos indígenas. Ela simplesmente tirou a cultura deles e não colocou nada no lugar"

Para Villas-Boas, uma das razões dos índios terem grandes problemas com dependência de álcool está relacionada ao vazio deixado pela retirada da cultura de seus povos.

É um cenário muito parecido com o que antevejo neste momento no Brasil. Não será implantada nenhuma cultura, sobrará o Vazio.

A estratégia de DAAS (Desinformation As A Service) hoje respinga no plano de se instituir uma nova verdade. (veja meu vídeo sobre DAAS abaixo)

Qual o risco disto? De que um terceiro elemento se aproveite da confusão e implante uma nova verdade.

Quem achou que conseguiria implantar uma nova verdade depois de confundir o cenário com mais inverdades agora sofre em manter a verdade que tentou construir.

Em breve veremos o que vai acontecer.

pesquisador do comportamento humano, tendências e arte

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