Cuidar dos Vivos e Enterrar os Mortos

Como definir quando começou a civilização? Alguns estudiosos acreditam que a primeira manifestação humana que nos diferencia de um grupo de primatas como os outros foi o momento em que começamos a enterrar nossos mortos.

O que significaria enterrar os mortos? Que observamos algo naquele corpo que transcende a simples existência, e que ele representa algo que vai além do físico. Identificamos uma mãe amorosa, um guerreiro poderoso, um sábio idoso e consideramos que devemos manter a memória deste indivíduo, prestando homenagem a ele. O corpo ali, já morto, simbolizaria algo que merece ser mantido, e não abandonado no tempo, para simplesmente ser comido pelos animais.

Enterrar os mortos também é simbólico no sentido da semente, como se plantássemos a pessoa lá para que ela pudesse brotar de alguma maneira. O ato de enterrar os mortos é considerado também o surgimento da espiritualidade.

Margaret Mead é uma antropóloga que apresenta um pensamento diferente deste acima citado. Ela considera que a civilização surgiu no momento em que nossos ancestrais passaram a cuidar dos mais frágeis. Ela diz que em nenhuma outra espécie podemos encontrar fêmures fraturados cicatrizados. A quebra de um osso como o fêmur leva necessariamente à morte do indivíduo em qualquer espécie. Com o fêmur quebrado o indivíduo não tem nenhuma autonomia, e acaba morrendo. Para que um indivíduo consiga cicatrizar um osso destes ele precisa que alguém tenha cuidado dele, alguém o tenha alimentado, transportado, até que ele estivesse curado.

Este ato de cuidar significaria o surgimento da civilização humana. Sem o cuidado não haveria civilização, resumindo.

Hoje jornal O Globo publicou uma edição especial: Um caderno inteiro dedicado às 10.000 pessoas mortas até hoje em decorrência da Pandemia. Cada uma das pessoas mereceu uma frase, contando quem era, e o que fazia.

A edição chamou muito a atenção pois pretende mostrar que as pessoas não são números, e o jornal se torna um enterro simbólico destas pessoas que morreram. E que não puderam ser enterradas dignamente, e que não foram cuidadas com o respeito que deviam.

Estas 10.000 pessoas são 10.000 fêmures quebrados que nossa sociedade deixou a própria sorte.

O governo brasileiro não criou nenhum dos princípios civilizatórios acima: Não cuidou nem permite um enterro digno, ao desqualificar sistematicamente a crise. Negar sistematicamente a crise é negar a existência daqueles que morreram nela. Da mesma maneira que não houve ditadura, portanto não existiram vítimas da Ditadura, e famílias passaram décadas sem poder velar e enterrar (simbolicamente) seus queridos, hoje o governo criminoso e genocida de Jair Bolsonaro não traz os traços básicos do que entendemos por civilização. Não é à toa que seja comparado ao nazismo: São desvios distópicos, são um atalho progressista perverso que joga a criança fora e guarda a água do banho.

Curiosamente a publicação da Comissão Nacional da Verdade é um dos deflagradores ainda não devidamente investigados do cenário social atual, reparem:

Em 2014 finalmente, depois de décadas de desinformação, é finalizado o documento que apresenta todas as evidências de tudo o que aconteceu durante a ditadura. A Comissão Nacional da Verdade formaliza e documenta o envolvimento de todos, todos aqueles que participaram direta e indiretamente da ditadura.

Da mesma maneira que a capa de O Globo, a CNV finalmente pôde enterrar aqueles mortos insepultos, varridos para debaixo do tapete da história.

Narrar a história de pessoas é uma maneira simbólica de preservar sua existência.

Até aquele momento a verdadeira história do que aconteceu, quem estava envolvido, onde, quando e como ainda era nebuloso. E provavelmente muitas histórias ainda irão ficar sem sabermos o que aconteceu.

Mas há um sentimento em 2014 de "história passada a limpo". E qual é o próximo passo? Criminalizar formalmente aqueles que foram responsáveis por atos contra a humanidade, como tortura, sequestro estupro e ocultação de corpos. Lembrando que muitos dos responsáveis pela ditadura ainda estão vivos, e ocupando cargos importantes em setores variados.

No mesmo ano, Jair Bolsonaro é eleito deputado federal com quase meio milhão de votos. E a reportagem de Francho Barón do El Pais questiona:

"A pergunta inevitável é: o que arrastou quase meio milhão de pessoas a elegê-lo como seu representante na Câmara dos Deputados? “A eleição de Bolsonaro mostra claramente que no Brasil existe uma parcela crescente da população, principalmente nas classes médias e altas, que têm uma visão muito conservadora do mundo"

Ainda na mesma reportagem, o pensador Ignacio Cano detalha:

“Bolsonaro conta com o voto corporativo de militares e policiais, e também com um voto ideológico da extrema direita, que tem a ver com a ditadura".

A publicação oficial do governo da Comissão pela Verdade, com todos os detalhes do que havia acontecido no Brasil coloca uma realidade que para uma parcela da população nunca deveria ter saído debaixo do tapete. Por que? Porque ela é conivente, não acredita nos princípios democráticos, civilizatórios, humanistas.

A ascensão de Bolsonaro representa a barbárie negando a civilização, negando os direitos mais básicos, negando os direitos das minorias. É a Elite do Atraso, como define Jessé de Souza em seu livro homônimo.

Natalia Figueiredo, em seu blog, fala sobre o trabalho de Jessé de Souza:

"…o livro questiona a estratégia de parte da esquerda em focar seu discurso na retórica: democracia versus fascismo, sem enxergar que boa parte da população já vive em fascismo prático de violência e exclusão, ao não adentrar nas causas reais da pobreza."

A prática da ditadura e das quebradas agora acontece em escala: Quem nunca ouviu falar da brutalidade policial, que uma pessoa da periferia sumiu e meses depois seu corpo é encontrado jogado em vala comum?

O que a Comissão pela Verdade queria enterrar não é cadáver insepulto: Está latente em nossa sociedade.

A Comissão pela Verdade queria trazer à luz uma história de nosso passado, mas o que percebemos é que aquele passado ainda existe. Não como uma ficção, uma versão do que aconteceu. Ela continua acontecendo em nossa sociedade. Não perdemos os hábitos da ditadura. Continuamos infringindo as regras, tolerando a violência, a intolerância. Somos coniventes. Quem convive com a periferia e os movimentos de direitos humanos sabe disto. Milhares de pessoas mortas por transfobia, por racismo, por homofobia, feminicídio…

Quando atingia os pobres, negros, minorias e periféricos a violência do estado era ignorada. A aceitação de que "estas coisas acontecem", como se existissem dois Brasis, duas medidas, um Brasil branco Farialimer e outro que era varrido sistematicamente para debaixo do tapete ganhou a eleição. Seu método agora atinge muito mais do que se imaginava. Com a pandemia , com o discurso de ódio, com os ataques às minorias e às instituições, a vala comum onde era jogado o corpo brutalizado pela violência agora cabe qualquer um.

O discurso ganhou, a civilização perdeu. Não poderemos cuidar de nossos doentes, nem enterrar nossos mortos. O ciclo da civilização no Brasil foi interrompido. Os documentos da CNV foram retirados do ar, minorias são hostilizadas. A brutalidade que existia na ditadura e que nunca deixou de existir na quebrada agora se esparrama por todas as castas da sociedade.

pesquisador do comportamento humano, tendências e arte

pesquisador do comportamento humano, tendências e arte