Embuste — O Abismo entre Imagem e Reputação

Ser Famoso é um projeto relativamente novo na sociedade. Famoso simplesmente para Ser Famoso.

Nos dias de hoje é o equivalente ao Ser Rico de umas décadas atrás. Mas apresenta algumas diferenças importantes, confira:

1 — Precisa ser Rico Com Classe

O projeto Ser Rico incluía um refinamento, um berço . Novo Rico sempre foi considerado brega e cafona. Necessário, mas com restrições.

Quer Ser Rico? Tem de frequentar os clubes bacanas, as escolas de elite, as casas de pessoas interessantes e finas. Resumindo, precisa de uma certa Aristocracia. A Potência está associada a uma Origem, não adianta ser podre de rico e um jeca, um comerciante sem as hashtags que definam Distinção. Assim, Ser Rico tem condicionais. O projeto é Ser Rico, mas tem que complementar com algum dado aristocrático e/ou acadêmico. Fidalgo significa exatamente isto, Filho de Algo.

Moliére representou muito bem estes conflitos em toda a sua dramaturgia (o certo seria falar comediaturgia, mas o termo caiu em desuso). Suas peças retratam o momento em que a nobreza já está meio falida e a burguesia têm dinheiro, mas não tem classe e glamour, e os interesses de ambas começam a convergir. Mas trazem complexidades, contradições, conflitos e muita confusão. Sua peça mais famosa define o dilema já no título: O Burguês Fidalgo.

Aulas de História já tratam disto nas escolas, de uma época onde há uma transição de poder. A Burguesia toma a dianteira com seu dinheiro, seu comércio e com sua vida mundana.

Mas sobra um rescaldo cultural da nobreza embutido nas aspirações da burguesia, algo mais difícil de alcançar, que nem sempre o dinheiro consegue comprar diretamente, é necessária a ajuda de um "insider" nobre para obter.

Esta é a regra dos clubes de elite de hoje no Brasil. Não basta ter muito dinheiro, precisa ser indicado por alguém ou conhecer alguém para poder entrar. Daí o hábito de se colocar a foto dos pretendentes no mural para verificar os "antecedentes" do postulante.

Quem retratou este tipo de transição social no Brasil recente foi Jorge Andrade, com sua peça "Os Ossos do Barão". A família de fazendeiros quatrocentões e seus problemas financeiros. O surgimento de um jovem burguês sem fidalguia mas com dinheiro e conhecimento necessário para poder tirar a família do buraco. O casamento arranjado, organizando os interesses, fundindo a elite nobre com o dinheiro e a pujança financeira da burguesia.

O ódio pela chamada "Lacração" que a tradicional família brasileira têm — do orgulho das minorias pela sua condição cultural (e não social), na atitude Sou Negro Sim, Gay com muito Orgulho, Favelada e Poderosa, e coisas do gênero, incomodam profundamente a pseudo tolerância que a tradicional família desempoderada têm. A tradicional família preferia que estes emergentes "se colocassem em seu devido lugar". São bem-vindos contanto que aceitem meus valores e se aculturem. Gay pode, mas beijar em público não. Precisa seguir a cartilha heteronormativa para poder conviver corretamente. Em suma, deveria ter pedido licença para entrar no clube.

2 — Ser Famoso é ser Curtido e Compartilhado — Mas não precisa Ser Rico.

É possível Ser Famoso e não dialogar com o Mainstream? Com a tradicional família brasileira? É possível, mas só até certo ponto.

Ser Subcelebridade hoje é um caminho para Ser Famoso. Isto é possível se desatacando em algum canal ou em alguma tribo. E para se destacar é preciso Polêmica, não necessariamente Talento ou Reputação. Para se destacar em uma tribo é preciso fazer algo que esta tribo faz, mas de maneira mais radical e exagerada do que a tribo está acostumada a fazer. Consegue-se exposição e destaque assim. Mas para outras tribos que não estejam acostumadas aos códigos desta tribo isto pode trazer um choque indesejado. E para a tradicional família brasileira, herdeira dos códigos de Os Ossos do Barão, esta exuberância não é nem um pouco bem-vinda. É esta exuberância que a classe média chama de Lacração.

E a Reputação?

3 — A Reputação foi soterrada

Um dos mais famosos cozinheiros do Brasil não trabalhou nos importantes restaurantes europeus quando mais novo. Ele simplesmente inventou. Conheço o sujeito, sei do que estou falando.

Uma importante influenciadora e palestrante não passou por importantes empresas do Vale do Silício. Seu passado inventado foi exposto por pessoas que vasculharam os registros de seu passado glorioso e o que encontraram não foi o que ela dizia.

Um YouTuber de destaque se gabava dos estudos acadêmicos em uma faculdade internacional de prestígio até ser desmascarado por outro YouTuber, seu desafeto.

Reputação está associada a Memória, e com o tsunami de informações que o universo digital oferece (junto de suas ferramentas de fácil acesso para a construção de qualquer narrativa ) não temos mais certeza do que as pessoas falam. E se não conseguimos averiguar, ou mesmo não temos interesse em averiguar, como construir uma Reputação através de fatos? Muito mais fácil inventar estes fatos e publica-los.

Romancear a verdade ou os fatos é bem razoável e humano. Um pouco de ficção acalma a alma de pequenos desastres comportamentais que possamos ter. Mas este não é o caso quando simplesmente inventamos absolutamente nosso passado. Passamos a viver numa bolha ficcional. Obtemos o bônus de sermos médicos prestigiados sem a necessidade de sofrer anos e anos para cursar uma faculdade cara e difícil.

A possibilidade de se destacar através da Reputação nos dias de hoje e obter os benefícios de um histórico bem-sucedido em sua área de trabalho é impossível. O mundo está cheio de auto-intituladas Reputações Ficcionais. Como não temos mais conexão com a profundidade e vivemos na superficialidade, ninguém checa nada. Então, para que diplomas, boas experiências profissionais se vivemos na Era do Embuste?

A Reputação em baixa gera outro problema, gravíssimo

Toda Reputação depende de um Passado Sólido e construído, não inventado.

O Passado que constrói a Reputação já foi Presente um dia. E naquele momento, quando era Presente, ele não se realizou com primazia, com dedicação e com qualidade. Ele simplesmente não existiu. Ele foi medíocre, banal e descompromissado. Sendo assim, os dias de hoje são resultado de um Passado medíocre, ocultado. E o Futuro será o resultado do Embuste que hoje estamos construindo. É a perpetuação de um cotidiano de baixa qualidade, que dialoga ficcionalmente simultaneamente com o Passado e o Futuro, mas nunca se realiza no Presente.

Diante de um mundo onde não nos dedicamos à construção do Presente e inventamos o Futuro ficcionalizando o Passado, que ainda mantém resíduos aristocráticos mas que descartou completamente as competências e habilidades em prol de uma astúcia social, dificilmente teremos alicerces sólidos para uma sociedade estruturada e menos desigual.

Se todo mundo faz qualquer coisa para entrar no clube, se todo mundo quer ser famoso sem precisar de reputação real (já que dá para inventar), se todo mundo se passa por aristocrático sem ser, o convívio social deixa de ter conexão com a realidade e passa a ser totalmente desconectado da realidade.

Este descolamento total da realidade cria uma nova Sociedade do Espetáculo, onde já não temos Palco e Platéia. A quebra da Quarta Parede, criada por Bertold Brecht nos anos 1930 se transpõe para a vida cotidiana e vivemos num mundo onde a Farsa predomina. Somos todos Farsantes.

pesquisador do comportamento humano, tendências e arte

pesquisador do comportamento humano, tendências e arte