Escolha sua Negação

Saímos de uma cultura tribal para uma cultura negacionista. Antes você fazia parte de um grupo ao afirmar suas verdades. Hoje, negando alguma coisa.

A Era da Lacração acabou, agradecem os conservadores. As ações afirmativas estão cada vez mais em desuso. Agora é hora de Negar.

Chegamos ao momento de Negação através do Cancelamento, foi ali que tudo começou. Qual Cancelamento? O de todo mundo. Se o Dalai Lama afirmar que não ouve Kpop já é razão para apontarmos nossos canhões digitais com o desejo de anularmos a existência do líder espiritual.

A Negação é o complemento do Cancelamento, Ying e Yang, são forças que fazem a roda girar. Por um simples motivo: É impossível negar tudo, ou cancelar tudo. Precisamos de alguma narrativa para dar suporte à nossa construção de nossas vidas. Se cancelarmos e negarmos tudo mergulhamos no abismo existencial que evitamos desde o dia em que nascemos.

A Negação é quando não queremos ver nossas contradições, e o Cancelamento quando não aceitamos as contradições que os outros têm.

No fundo é uma tentativa de simplificar o mundo, manifestação infantilizada diante de um mundo complexo. Sempre comento que vivemos numa época em que os fenômenos complexos são entendidos como complicados. Não há tridimensionalidade, ambiguidade, apenas conceitos simples e palatáveis, portanto, insuportáveis.

Como levantar bandeiras e acreditar em alguma coisa sem ser negacionista? Impossível. Portanto:

  • Para acreditar no Governo Bolsonaro é necessário negar qualquer corrupção que emane dele ou de sua família.
  • Para acreditar no Lula é necessário negar qualquer desvio de conduta dele e de seu partido durante o mandato.
  • Para acreditar na vida é necessário negar o vírus.
  • Para acreditar no crescimento econômico é necessário negar a pobreza.

Eu e você fazemos isto o tempo todo. Atacamos as incongruências dos outros e anulamos as nossas para vivermos num mundo simplificado, onde o bom é bom e o mal é mal.

Infelizmente (ou felizmente) em algum momento precisaremos nos confrontar com a realidade complexa. Que somos falíveis, que nossas decisões excluem coisas boas e muitas vezes incluem coisas ruins, que os outros são diferentes de nós em tudo, mas que somos semelhantes em pelo menos uma coisa: Nossa incoerência.

Alessandro Bender

Março 2021

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pesquisador do comportamento humano, tendências e arte

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