Esperando Godot

Samuel Beckett

Esperando algo que não vai chegar.

Na peça Esperando Godot, de Samuel Beckett, Estragon e Vladimir passam o tempo todo no palco à espera de Godot, personagem de quem não sabemos nada, apenas que está sendo esperado.

Enquanto esperam Godot, os dois personagens conversam sobre banalidades. E obviamente Godot não chega.

A espera cria um vazio, um nada que precisa ser preenchido com frivolidades e enrolações. Apesar de estarem esperando o personagem, nada se sabe dele, quem é, por que o esperam, o que poderá acontecer quando ele chegar.

A peça é sobretudo influenciada por questões existenciais. Como se dissesse que todos estamos esperando por algo que nunca surgirá. Ou que precisamos definir o que queremos pois se esperarmos o mundo apresentar algum sentido ficaremos literalmente sentados.

Se a peça trata da inação, ela trata um pouco do momento em que vivemos hoje. O que é a Depressão se não o esvaziamento do sentido que tínhamos em nossa vida? A imobilidade que temos hoje faz parte de um processo depressivo nacional (antes era global), diante da falta de expectativa e de sentido que nossas vidas apresentam.

A espera da morte nada mais é que este esvaziamento da vida. Simplesmente esperamos, não almejamos mais nada, não caminhamos em direção a nada, observamos as ruínas em silêncio.

Godot não chegará, mesmo que falemos seu nome mil vezes ou mais. Estagnamos diante de precipício, contemplamos o vale sombrio, e não conseguimos mais nos mover.

Observar a morte não é viver. Não que não devamos leva-la em consideração sempre, mas o estado de anestesia, gerado pela depressão, pelas drogas ou pela esperança não nos levarão a lugar nenhum.

Talvez devêssemos nomear os dias de hoje como "Godot". Indivíduos, tribos e nações esperando por algo, reclamando da saúde, temendo o futuro mas não se mexendo na direção de nada. Simplesmente esperando.

Há uma belíssima edição de Bartleby, projeto da antiga Cosac & Naif que hoje é vendido pela Editora Ubu

Curiosamente não somos Bartleby, o Escrivão, da magnífica obra de Herman Melville , que num determinado momento passa a se recusar a fazer absolutamente qualquer coisa. A recusa de Bartleby, por mais estranha que possa parecer é uma atitude. Sem razão aparente ele polidamente se nega a participar das questões mais banais do dia-a-dia. Mas a recusa é poderosa, mesmo que não seja propositiva. Somos obrigados a fazer alguma coisa? Por que?

Bartleby me remete ao Banzo, sentimento de pessoas escravizadas que deixavam que fazer seus afazeres e ficavam prostrados até morrer (ou se matavam). O não aceitamento de nossa condição de vida pode nos gerar a recusa ao viver tal como ele está apresentado. Quando há um profundo estreitamento do horizonte hermenêutico podemos simplesmente nos recusar a continuar levando a vida.

Mas Estragon e Vladimir não se recusam a viver, nem se recusam ao próprio ato de Esperar Godot. Eles "vivem" a espera ou "vivem de esperar", sem esperança. Só estão lá, esperando.

Bem vindo à Era Godot.

Alessandro Bender

2021

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pesquisador do comportamento humano, tendências e arte

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