O que os novos fones de ouvido ensinam sobre a vida que levamos

Se você mostrar os novos fones de ouvido sem fio para um morador de uma área isolada, como uma floresta ou montanha, eles provavelmente vão rir de você.

Se você mostrar um celular destes todos de vidro o pessoal da vida selvagem também vai estranhar.

Se minha mochila bater em alguma parede enquanto anda provavelmente meu laptop vai quebrar.

É uma estratégia de marketing para aumentar o lucro de empresas de manutenção?

Estamos tão falsamente protegidos dentro de nossa individualidade isolada que não cogitamos "equipamentos resistentes". Raras são as pessoas que procuram um laptop robusto. Preferem um com mais bateria, assim nossa individualidade não precisa sair da redoma nem para esticar a mão na direção de uma tomada fora de nossa existência solitária.

E não, nossos equipamentos frágeis não estão quebrando mais do que os antigos. Eles nos ensinam a nos relacionarmos através da fragilidade. Fragilidade é valor, e estranhamos quando alguém coloca a mão no nosso ombro, quando alguém nos interrompe. A fragilidade é padrão.

Existem inúmeras razões para que as conexões e as pessoas estejam neste estado, e nossos aparelhos são o resultado de um mundo baseado na fragilidade, de um "é melhor não tocar senão pode quebrar".

Sem contar que a complexidade dos aparelhos que nos impede de destrincha-los, de abrir suas entranhas e buscar resolver quando eles quebram.

Aquela coisa de que qualquer um consegue consertar um Fusca com um barbante é verdade. As entranhas da tecnologia mecânica são relativamente acessíveis se comparadas com as entranhas tecnológicas.

Se os artefatos quebrarem, teremos de sair de nossa redoma e nos enveredarmos no universo desconhecido dos técnicos que nos tratarão como idiotas e poderão cobrar quanto quiserem, mais uma fragilidade exposta.

Estou evitando falar bolha para não entrar na seara do Sloterdjik, que traz uma complexidade muito maior ao assunto e não pretendo trabalhar aqui. Por isto o termo Redoma.

Sloterdjik

A própria miniaturização também facilita. Hoje somos animais enormes encurvados usando as pontas dos dedos para acessar uma outra dimensão através dos smartphones, cada vez menores e mais finos. O gesto que antes representava o acolhimento, o corpo circundando como se preparando um abraço agora demonstra esta sensação de que estamos levando uma pequena taça de cristal em cima de uma bandeja escorregadia.

No mundo físico esperamos ser tratados como tratamos nossos celulares e nossos fones de ouvido: Com um toque mínimo, quase não nos encostando para evitar que quebremos, pois se quebrarmos não saberemos o caminho para nos consertarmos.

Agimos com uma monstruosidade intensa e perversa nesta dimensão, em contraposição à fragilidade de nossa existência física, exposta e metaforizada todos os dias através de nossos aparelhos eletrônicos, que ironicamente são o canal de conexão com o mundo virtual.

pesquisador do comportamento humano, tendências e arte

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