Ganhando na Pose

Quanto mais nos preocupamos em Parecer algo ou alguém, mais estamos abertos a interpretação que os outros têm de nós.

O problema? É que almejamos controlar este processo, e pra isto é necessário termos regras de dominância e superioridade claras e definidas. Quanto mais precisas e abismais, mais fácil ficará delimitar qual o parâmetro está sendo usado para estabelecer as relações entre as pessoas.

Mas o que realmente interessa é que nos tornamos uma sociedade onde Divar se tornou meta. Códigos simples como um corte de cabelo, uma maneira de andar, tudo conta.

O que é Divar?

Grosso modo, Divar é Desfilar, algo entre o Vogue que Madonna popularizou nos anos 1990 e a cultura da Auto-Imagem disseminada pelos Selfies nas redes sociais.

Bauman aborda parte desta questão em seu livro Vida Para Consumo, quando mostra a estrutura de Vitrine Digital que estimula/transforma pessoas em produtos. Mas Divar vai um pouco além da questão do consumo: É uma atitude perante o mundo. Viver para ser visto, desfilar para ser notado, esnobar para poder obter valor. Trocando o princípio básico de conectividade essencial dos animais sociais que é a Empatia pela Pose, busca-se um status diferenciado perante o grupo.

A busca por status é a chave da questão.

E dentro de uma sociedade com herança escravocrata e da realeza, nada mais adequado do que esnobar tudo e a todos na expectativa de ser identificado como alguém de uma casta superior. É na empáfia e na arrogância que se definem as conexões sociais. O orgulho de ser aquilo que somos não passa pela humildade, mas sim pela necessidade intensa de nos sentirmos superiores.

O senso de superioridade já existia na cultura do Diploma no Brasil. Todos queriam ser Doutores, e grande parte da comunidade de advogados busca este reconhecimento "douto" de tratamento. Delegados também adoram.

Com a Vitrine Digital todos nos tornamos Micro Empreendedores de nós mesmos, e não podemos de maneira nenhuma permitir que nosso produto corra o risco de se tornar anônimo e perder o valor. O anonimato é pior do que a morte dentro do universo da Divação.

Daí o título deste texto, Ganhando na Pose. A questão não é só identitária no sentido de a roupa representar um estilo e agregar no sentido comunitário, visualizar os semelhantes. O que rege agora é uma tentativa de ser totalmente diferente dos outros, não no sentido horizontal das relações, mas sim vertical.

Se a roupa um dia serviu para conectar as pessoas simbolicamente, facilitando a identificação de elementos que as unissem, hoje ela serve para deixar claro que o indivíduo faz parte sim de um grupo, mas é superior aos demais componentes.

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pesquisador do comportamento humano, tendências e arte

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