Gestores — Analisem a Reunião do Bolsonaro

Esqueça os palavrões, a grosseria, as piadas infames ou de mau gosto. Pense como gestor.

Para começar é necessária uma pauta. Qual era a pauta da pessoa que convocou a reunião?

A apresentação de um plano de crescimento emergencial da economia brasileira.

Para começar este encontro com todos seria desnecessário, já que teríamos um dos gestores dedicado a pensar nisto. Paulo Guedes, o chamado Posto Ipiranga é o cara que deveria estar cuidando disto. Mas parece que o plano não é dele, é de outro cara, o chefe da Casa Civil… Estranho…

Meu caro gestor, um Plano não é uma Ideia: Se eu for seu funcionário e chegar em sua mesa para dizer que tenho um plano, você obviamente vai me pedir detalhes dele, como implantar, resultados potenciais, etc.

Se quiser ver mais detalhes do "plano" Pós-Brasil (um nome interessante, já que parece que o Brasil vai acabar e depois vai surgir algo, demonstrando implicitamente a destruição do país), clique aqui. Poderá ver que é um rascunho, e que não envolve todos os departamentos, mas sim apenas dois ou três. Para que então convocar mais de trinta pessoas para falarem sobre ele?

O gestor responsável pela Economia não concorda com o plano, e deixa claro isto. A pergunta, meu caro gestor, é a seguinte: Se você tem um gestor responsável por uma área e ele não desenvolve um plano eficiente ou não está obtendo resultados, você manteria este cara no cargo? Ou pediria para outra pessoa fazer o trabalho que seria dele?

A reunião inteira seria apenas para a apresentação do Plano Pós-Brasil, meu caro gestor. Não seria melhor mandar o projeto por email para o pessoal desenvolver ideias de como cada departamento pode contribuir com o projeto, e só depois reunir para saber as potenciais colaborações? Você gastaria horas apenas para mostrar alguma coisa que poderia ter sido mandada por email?

Como as dezenas de participantes não tinham conhecimento para se prepararem para a reunião ela acabou se tornando um grande e desestruturado brainstorming, que por sinal para poder acontecer precisa de metodologia e condução, senão vira um grande bate-papo confuso.

No caso virou uma grande lavação de roupa suja, cheia de indiretas e de dedos apontados para quem estaria contra o rascunho do projeto. A chance de virar um especial da (excelente) série The Office é praticamente 100%.

A grande maioria do tempo desta reunião foi improdutivo, a própria convocação foi criada de modo equivocado.

Uma reunião não é um pronunciamento. Reuniões precisam ser organizadas, as pessoas convocadas precisam conhecer a pauta antes, se prepararem para poder colaborar adequadamente.

Reuniões com muitas pessoas geralmente são organizadas em equipes de trabalho, onde grupos se separam e elaboram ações propositivas, definem possibilidades e depois apresentam para o grupo completo.

Lauro Jardim, de O Globo, entrevistou Paulo Bilyk, ex-sócio de Paulo Guedes e atual CEO da Rio Bravo, querendo saber sua opinião sobre o vídeo vazado e sobre a reunião em si. Diz Bilyk:

— Qual a chance de uma empresa tocada do jeito daquela reunião dar certo? Ou uma escola então? Uma organização social ? Até a Máfia, que sucesso teria assim? Qual a eficácia do caos? Seja qual for a ideologia, qual chance de dar certo?

Fica novamente a pergunta: Você, meu caro gestor, acha que uma reunião desta pode gerar algum resultado?

Em tempo, apenas um de seus gestores lembrou que o Brasil está em plena Pandemia, e que milhares de pessoas estavam doentes e outras tantas morrendo. Este foi Nelson Teich, demitido alguns dias depois.

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pesquisador do comportamento humano, tendências e arte

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