Meritocracia e Autoestima

Já analisei o impacto da Meritocracia na percepção que temos dos outros e de suas mazelas em um artigo aqui mesmo no Medium. Mas e quais os resultados do pensamento meritocrático na percepção que temos de nós mesmos?

Confundindo Mérito com Privilégio ?

Não percebemos nossos privilégios. Da mesma maneira que não somos capazes de perceber as dificuldades dos outros, temos dificuldade de compreender as facilidades que a vida nos traz.

A estudante de escola particular não consegue enxergar que a maioria não têm esta oportunidade. Quem anda de carro não entende as dificuldades de quem anda de ônibus, e por aí vai.

Na verdade achamos que tivemos algum mérito naquilo, o que é ainda mais complicado. Que por alguma razão somos responsáveis por coisas que tecnicamente são apenas casuais.

Nascer em uma família rica ou pobre é mera questão do acaso. Termos tido acesso à inúmeras facilidades não entra na nossa lista emocional de casualidades, mas sim de normalidade, como se tivesse de ser assim, e ponto.

Já no caso de avaliarmos (e por que não dizer julgarmos?) os outros, pensamos diferente. Gente indolente, preguiçosa ou mesmo acomodada à sua situação. É o que se ouve das pessoas que não tiveram os mesmos privilégios que eu ou você.

Em suma, não percebemos o quanto a vida nos beneficiou em alguns (ou muitos) aspectos.

Sou totalmente responsável pelos meus atos e pelas consequências deles ?

Podemos alterar nossa realidade a qualquer momento, é o que muita gente diz. Basta querermos. Mas e quando não conseguimos? Obviamente significa que não nos esforçamos o necessário, não perseveramos o bastante. E isto acaba caindo na nossa conta emocional.

Quem nunca falhou? Quem nunca teve de enfrentar desafios que foram maiores que sua capacidade de enfrentar?

Falamos para quem quiser ouvir que Errar faz parte, mas não aceitamos o erro. Achamos que quem erra errou por culpa própria, e que é totalmente responsável pelos resultados.

Em corporações o Erro já está começando a ser aceito em algumas empresas, embalado pelo conceito de Inovação. É só lembrar do conselho do Thomas Edison sobre ter "errado" dez mil vezes ao tentar criar a lâmpada.

Mesmo assim, no cotidiano (das empresas e da vida), errar é algo grave, e culpabilizável. A responsabilidade do erro sempre será sua. Ou não avaliou corretamente os riscos, ou não soube utilizar os recursos disponíveis. Mas sempre é problema seu.

Nossa capacidade de enfrentar o risco varia de acordo com nosso perfil. Jogadores e Adictos em Risco se arriscam muito mais do que pessoas com perfil introspectivo ou inseguras.

Isto não as faz mais aptas ao mundo, apenas significa que são pessoas com mais interesse em dopamina do que a média geral.

E se estivermos valorizando demais a dopamina? Viciados em dopamina geralmente ignoram riscos e se jogam em situações que podem fazer muito mal a elas e às pessoas ao seu redor.

Valorizar demais a vida regida pela dopamina é colocar a sociedade em um risco permanente. Pessoas viciadas em jogo geralmente se dão mal. A porcentagem de quem se envolve em jogo e se encrenca é muito, muito maior daquelas que se dão bem. Se não fosse um negócio onde a banca ganha, não existiriam tantos cassinos espalhados pelo mundo, meu caro.

A falácia da Atitude Positiva — Eu quero, eu posso

Não é à toa que estamos imersos num mundo de literatura e palestras de Auto Ajuda. O discurso motivacional domina.

Não Desista! Não Pare! No Pain no Gain!

Não há nada de errado em persistir, muito pelo contrário. Não há nada de errado em aceitar que as pedras no caminho machucarão nossos pés e nem por isto devemos desistir.

O problema é o discurso que está por trás disto:

Se você não conseguir, é porque não tentou o suficiente.

Este raciocínio, levado ao limite, justificaria uma série de acontecimentos mundiais como "faltou esforço do pessoal". Fome na África? Judeus perseguidos? Bósnios massacrados?

Muitas vezes tentaremos de tudo, e mesmo assim não conseguiremos resultados.

A momento culminante deste discurso talvez seja o filme com o Matt Damon, Perdido em Marte. Basta não perder a motivação e ser engenhoso que tudo dará certo, mesmo sozinho a 200 milhões de quilômetros da Terra.

O Circulo Hermenêutico

A Filosofia, em especial o Existencialismo, leva muito em conta o universo que nos rodeia. Se por um lado a existência está associada diretamente à experiência do individuo, por outro é impossível compreender este sujeito sem levar em conta o mundo em que ele está inserido. Parte do que somos depende de onde estamos. Daí o Dasein (Ser-Em/ Ser-Aí) de Heidegger. Somos Em Algum Lugar, Em Algum Contexto.

Da mesma maneira que nascer numa família rica ou pobre depende absolutamente do acaso, onde e quando você nasce também é aleatório. E ao mesmo tempo é determinante para a construção de quem somos.

Pense por exemplo se você tivesse nascido cem anos antes do que nasceu. Muitas coisas em seu comportamento seriam diferentes. Provavelmente viveria num ambiente com regras que definiram seu caráter de um jeito que você talvez nem imagine. Características como ser ansioso, pacato, impulsivo provavelmente seriam iguais, mas sua formação e a maneira de entender o mundo não.

A Tragédia Grega e o Destino

Os gregos antigos acreditavam em Destino, e sua dramaturgia reflete isto. Édipo é o exemplo clássico da inevitabilidade do destino. Por mais que ele tente fugir, não há como escapar.

Os povos ancestrais também acreditam em destino, da mesma maneira que os "matutos" e pessoal do interior. "Ainda não era a hora dele" é um termo comum no interior de SP, quando alguém escapa de um acidente.

O Trágico na dramaturgia grega é justamente lutar contra o destino. Mesmo sabendo que não é possível fugir, há uma beleza em confrontar o inevitável. Quase como tentar enganar a morte.

É o oposto do que acreditamos hoje.

Teocentrismo > Antropocentrismo > Egocentrismo

Vivemos na Era do Ego, do Eu. Como animais sociais deveríamos saber que isto é uma grande contradição, já que dependemos dos outros para tudo, vivemos em grupos.

A Meritocracia é mais um elemento que reforça uma percepção de que poderíamos ser senhores de nosso destino, sem depender do mundo que está ao nosso redor. E quando nossos méritos não são reconhecidos nem recompensados, o resultado é a solidão e a não-aceitação de si próprio.

Talvez, de alguma maneira, a depressão seja o reflexo do descompasso que temos entre este Eu isolado, egóico e com altas expectativas e o Mundo que nos rodeia.

É uma cilada, mas aparentemente não percebemos isto.

--

--

pesquisador do comportamento humano, tendências e arte

Love podcasts or audiobooks? Learn on the go with our new app.

Get the Medium app

A button that says 'Download on the App Store', and if clicked it will lead you to the iOS App store
A button that says 'Get it on, Google Play', and if clicked it will lead you to the Google Play store