Em privação damos valor às coisas

Sei que todo mundo odeia passar vontade, ter de economizar, ficar com aquele gosto de quero mais e não poder se lambuzar. Mas o que sei é que só damos valor às coisas quando não estamos saciados, inchados delas.

Ter tudo à disposição é um luxo, algo que só percebemos quando as coisas deixam de estar disponíveis.

O confinamento fez com que ficássemos privados de muita coisa, mas uma das coisas que menos percebemos é a privação de sentidos. Dentro de casa, olhando para a parede, saindo do quarto para a sala e vice-e-versa ficamos numa condição monótona, empobrecida de estímulos.

Percebi isto a primeira vez que tive de sair para resolver uma questão duas quadras de onde moro. Ao passar por uma praça fiquei encantado com a luminosidade do sol e de seu calor. Estava tão acostumado ao sol que deixei de dar valor a ele. Passei uns bons minutos quieto, parado na praça sentindo aquela luz, vendo as árvores iluminadas, as sombras.

Semana passada tive a oportunidade de migrar de confinamento: Da cidade fui ficar isolado na praia. Mantive todos os protocolos mas me permiti caminhar pela praia uma vez por dia, num horário onde poucas pessoas iam passear, numa situação relativamente segura.

Nestas caminhadas voltei a fotografar. Com celular mesmo. Coisa que não fazia faz tempo.

E o que me chamava a atenção era a areia, os desenhos dos animais que rastejam nela, pedaços de alga. O que era antes apenas um lugar para pisar se tornou um universo de redescobrimento. As fotos estão aqui, ilustrando o texto.

Espero que você esteja dando valor às coisas pequenas durante a pandemia, descobrindo e redescobrindo os detalhes do viver.

Com uma sociedade estruturada no exagero, nada como um pouco de privação para perceber o que realmente importa na vida.

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pesquisador do comportamento humano, tendências e arte

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Alessandro Bender

Alessandro Bender

pesquisador do comportamento humano, tendências e arte

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