O Curioso Caso de André Abujamra

No dia 10 de agosto foi apresentado no Sesc Pinheiros o último projeto de André Abujamra, Omindá, um Cineshow, mistura de filme e música ao vivo.

A ideia de conectar países, artistas e continentes através da música e das águas consumiu mais de 11 anos de pesquisa, inúmeras viagens, contratos sem fim e imagino que um esgotamento nervoso: Todo o dinheiro para a realização saiu de seu próprio bolso, como mostra no primeiro instante do filme.

Na platéia, só gente ilustre. A grande maioria da Fidalguia Paulistana (És alguém se és filho de alguém): Filhos de intelectuais, músicos, performers, galera do Santa Cruz, Equipe, Logos, Oswald e por aí vai. Só a platéia dava um documentário sobre a cena proto-artística e cultural da Vila Madalena 1990–2000.

Não me lembro da primeira música, mas me chamou a atenção a letra da segunda música do cineshow, "O Mar". Segue um trecho:

O mar é como a vida, o mar
O mar é como a vida, o mar
Que tá calmo e no outro não
Que tá calmo e no outro não

O mar, como é doce o mar
O mar, como é doce o mar

Confesso que a letra, aliada à uma orquestração em uníssono e projeções que remetiam à linguagem New Age me geraram um certo desconforto. Parecia que a fina ironia e a leveza estética tinham dado lugar a uma versão pasteurizada de si mesmo. Acho que o André Abujamra está levando a sério demais o André Abujamra…

A sequência do show foi mais ou menos na mesma toada. Imagens e clipes do artista viajando pelo mundo e tocando com outros músicos. Mas estranhamente sem inovação, sem graciosidade.

Estava com amigos do artista e com pessoas que seguiam passo-a-passo a carreira dele. Passamos a compartilhar nossos sentimentos.

O primeiro foi de vergonha alheia. Ficamos pensando se o artista não teve em nenhum momento um amigo que chegou ao lado dele e disse "meu chapa, ainda não está bom, melhor mexer mais".

O segundo foi de uma sensação de que o artista talvez tenha se levado a sério demais. Já aconteceu com um monte de gente, errar é humano, todos passamos por isto. Acreditamos que temos algo incrível em nossas mãos e no final das contas trocamos a vaquinha leiteira por um punhado de feijões mágicos.

O terceiro foi que nem todo Kitsch é ruim. Quando assumimos dentro de nossos corações a breguice e esparramamos intencionalmente para o mundo nossa alma cafona, é legal. É divertido, há uma beleza no brega. Mas o brega não intencional tende a se tornar patético e/ou desagradável.

O quarto é que o espetáculo lembrava algo entre uma propaganda inspiracional de copa do mundo e um show de variedades de um cruzeiro transatlântico. Pirotecnia, Glitter e Variedade Étnica sorrindo.

Em cena, André Abujamra canta em sincronia com o ator André Abujamra, com a letra de André Abujamra, dirigido por André Abujamra, produzido por André Abujamra, editado por André Abujamra e financiado por André Abujamra. Ao fundo, uns músicos.

O que será que aconteceu com o moço?

Espero, do fundo do coração, que ele reveja este material, pois está longe da qualidade que ele sempre apresentou.

Espero também que eu esteja profundamente equivocado, e que toda a platéia esteja certa. Afinal de contas, Vila Madalena inteira ovacionou o músico e cineasta naquela noite.

pesquisador do comportamento humano, tendências e arte

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