O Homem Respeitável

Geralmente são homens de meia idade, ou seja, com experiência e bagagem acumulada. Gente estudada. Que estudou Direito, Administração, Medicina, disciplinas importantes para o bom andamento da sociedade.

O Homem Respeitável era uma meta a ser alcançada, um status a ser obtido, construindo ou simulando.

Sempre ajudou muito parecer um Homem Respeitável, com terno e gravata, sapatos bem polidos.

O Homem Respeitável sempre fala de maneira magnânima e altiva, como se exalasse conhecimento. Emposta a voz, assume um tom pausado e levemente mais grave que sua tonalidade de voz. Isto dá a falsa sensação de que ele pensa cada palavra antes de falar.

Ancient Master, por Davide Bondi

É uma figura arquetípica que ocupou o lugar do Ancião na civilização moderna. Com a desqualificação da velhice e o culto ao jovem, coube ao homem levemente grisalho e de camisa polo ocupar seu lugar. Ele, em suma é o mais experiente dos adultos, e deve ser ouvido.

Mas não são todas as pessoas de idade mediana que seriam ouvidas. Há as expectativas sociais, e os valores que esta cultura emana.

Um exemplo é o Cidadão de Bem, uma variedade politizada do Homem Sério. O Cidadão de Bem geralmente é conservador nos costumes e liberal na economia. Acredita na meritocracia, não enxerga seus privilégios e quando se depara com uma pessoa em situação de rua comenta que ela poderia estar trabalhando ao invés de pedindo, basta força de vontade e uma enxada.

Outro exemplo são os Coachs de autoajuda, também meritocráticos. Geralmente simulam todos os sinais de que são aptos a serem seguidos e respeitados, mesmo que não tenham ficado ricos ou famosos. A simulação ajuda artificialmente na construção da figura simbólica de Homem Sério.

A roupagem é a mesma, seguindo a lógica de O Hábito faz o Monge. O ícone máximo desta figura nos dias de hoje é João Dória, governador de SP.

Não é por acaso que figuras "bem-sucedidas" dentro dos valores sociais brasileiros (dinheiro, fama, hétero, branco etc.) se tornem políticos. Eles são nossos exemplos.

Daí surge uma pandemia, algo nunca imaginado nem em nossos piores pesadelos. E os recursos e valores que os Homens Respeitáveis têm diante deste novo cenário são poucos, ou equivocados.

Há um achatamento da figura simbólica da pessoa que seria nosso sábio. Todos eles se apequenam, ou voltam para sua real estatura.

Há uma certa magia que os liquefaz enquanto figura relevante e guia social.

Moleques e Garotas estudiosas de calça jeans, nerds das mais variadas áreas e de todas as idades começam a construir soluções mais sólidas do que as dos Homens Respeitáveis.

Quem é a "autoridade" agora, com a falência perante as soluções e a evidente mesquinhez destes Homens de Bem diante dos problemas coletivos?

Uma das soluções tomadas por figuras como Luciano Huck é simplesmente desaparecer, e voltar depois que a tempestade acabar. Repare: Onde estão as grande lideranças de Homens Respeitáveis durante a pandemia? Façam uma lista dos candidatos a governo de SP nos últimos 20 anos e vejam. É uma boa maneira de terem uma noção dos sumidos. Todos desaparecidos. Homens Respeitáveis escondidos, justo no momento em que poderiam surgir para nos liderar, nos acolher, nos orientar.

Estas pessoas apostam que é melhor ficar quieto do que falar besteira. Politicamente poderia até parecer interessante, mas socialmente é um desastre. Deixa claro que o que chamávamos de líderes são apenas figuras de fala empolada e de camisa social. Alpinistas sociais, agora abrigados no quentinho enquanto a chuva negra não passa.

Não, não há uma campanha contra eles. O que acontece é que diante dos problemas graves surgem as verdadeira lideranças, os faróis que precisamos em noites sombrias.

Há um impacto muito interessante neste sumiço dos Homens Respeitáveis, nas suas casas de campo, nos seus condomínios pedindo sushi por delivery.

Talvez tenha de ter acontecido uma pandemia para compreendermos que o Rei está Nu.

O jogo político e o jogo social estão em outras mãos agora. E se as novas lideranças não estão fazendo o jogo político agora é porque estão atuando em suas comunidades.

A imagem simbólica do Homem Respeitável se trincou, e isto é bom, mas não para eles.

Por isto a agonizante e patética figura fantasmagórica do presidente anda por aí abraçando todo mundo em drogarias e padarias. Ele se apega a uma figura que deixou de existir, a um prestígio que o Homem Respeitável ainda teria. É só uma questão de tempo.

Seguidores e admiradores destas figuras titubeiam, rareiam. Os que ainda estão acompanhando os homens brancos de cabelos levemente grisalhos seguem seu espectro por apego a um modelo já trincado.

Freud dizia, no Complexo de Édipo, que precisávamos "matar" a figura do pai para podermos crescer, e nos tornarmos adultos. Infelizmente não conseguimos matar nossos "pais" a tempo: Eles estão morrendo, junto com suas figuras de Homens Respeitáveis.

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pesquisador do comportamento humano, tendências e arte

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