Reflexões diante do Colapso

O que é um Vírus? Com o que ele se parece? É realmente algo vivo? Ele pode morrer? Se não é um ser vivo como ele morre?

A condição de ser ameaçado por algo volátil e invisível já traz as marcas de que algo fantasmagórico nos rodeia. O fato de não sabermos se estamos contaminados ou não, se ao sair pela rua encontrarei este elemento no ar, no chão, nos postes também traz a marca da assombração: Alguém já viu o vírus? Por isto as televisões e os jornais fazem questão de criar em computação gráfica ilustrações chamativas. Tentamos tangibilizar esta ameaça invisível, e continuamos no universo espectral: Sabemos que ele existe, ou achamos que sabemos, mas não conseguimos ver o que nos amedronta. Só conseguiremos ter a experiência concreta quando nós ou alguém ao nosso redor começar a apresentar os sintomas.

O Luto é uma realização. É a realização e o confrontamento com a perda, com a ausência. Tradicionalmente se apresentam cinco fases no Luto (Kubler-Ross): Negação, Raiva, Barganha, Depressão e Aceitação.

Podemos dizer que Fantasmas e Espectros fazem parte de uma categoria que traz uma dualidade intrínseca. Diferentemente da dualidade do Gato de Schrodinger, aquele que não conseguimos saber se ele É ou não É (se ele está vivo ou morto, pois está os dois simultaneamente) , os fantasmas São e não São ao mesmo tempo. É na presença de algo ausente que eles se manifestam.

Fantasmas se realizam (e nos assombram) por simultaneamente serem Ausência e Presença.

A grande questão é quando nos confrontamos com um Luto Fantasma: Ele se realiza na presença de Espectros.

Estão mortos mesmo?

Em vários lugares do mundo familiares têm de aceitar que seus entes queridos morreram, mas não podem realizar velório, nem olhar para seus mortos. Muito menos enterrar seus mortos.

Como viver o Luto tradicional, se não realizamos a vivência de morte?

Por outro lado temos — em quarentena — a questão de convivermos com familiares isolados. Boa parte das famílias não pode encontrar com os seus durante os dias de hoje, e numa situação de doença os familiares não poderão acompanhar e aconchegar seus parentes.

Diante da ansiedade que a situação gera, experienciamos um Luto-não-Luto. Se eu ficar doente eu não poderei ser cuidado (acolhido), e se minha mãe ficar doente, não poderei acolhe-la.

A fantasmagoria se dá através das relações e condições não realizadas. Vemos as pessoas por pequenas telas. Estamos realmente nos relacionando com elas? E mais: Como sabermos se estão realmente bem, ou se estão prestes a adoecer?

Veja o exemplo de nosso Luto perante a nossa vida que deixou de existir quando começa a Pandemia do Covid19. Qualquer pessoa bem informada (em Abril 2020) têm a clareza que o mundo que existia antes desta catástrofe já não existe mais. Teremos um novo mundo pela frente. Aqueles que sobreviverem terão se se confrontar com um novo cenário.

Sabemos que o mundo em que habitávamos morreu. As ruas serão diferentes, o comércio será diferente, os encontros mudarão, as relações passarão por profundas alterações. Mas quais?

Este mundo antigo, que já não existe mais, rege o mundo em transição em que vivemos hoje. Tentamos seguir os procedimentos cotidianos de um mundo pré-colapso.

Vivemos num mundo fantasmagórico, numa rotina espectral, tentando validar um novo estilo de vida dentro de um mundo que se apresenta como assombração.

pesquisador do comportamento humano, tendências e arte

pesquisador do comportamento humano, tendências e arte