O magnético charme de um idiota

Nunca na história deste país tantas pessoas ficaram vidradas em um idiota como hoje

Poderia parecer que estamos falando do BBB ou de algum outro reality show, mas estamos falando de política.

Falaram muito da postura da cantora Karol Conká no BBB 21. Que ela seria uma pessoa terrível, que tratou os outros participantes de uma maneira desagradável e cruel.

Pensando que ela estava numa situação de confinamento no estilo Experimento Social Midiatizado, podemos dizer que ela era um rato de laboratório mais agressivo que os seus colegas, quem sabe. Um rato dentro de uma gaiola, circunscrito àquela situação e vigiado o tempo todo. Caso esse rato desse uma mordida mais violenta num dos outros ratos ele seria retirado imediatamente do experimento.

Existem inúmeros filmes de terror que começam assim: Um experimento que sai do controle. Um animal que deveria estar dentro de uma jaula e que num determinado momento consegue escapar e aterroriza a vizinhança, e depois o mundo.

No caso deste tipo de filme de terror, há um medo subjacente onde o verdadeiro vilão é a ciência e seu potencial descontrole. Cientistas mau intencionados ou descuidados poderiam gerar experimentos perigosos para a humanidade.

O atual presidente é, de certa maneira um experimento social que fugiu do controle numa sociedade do espetáculo.

O seu palco sempre foi a mídia, como os programas de TV da Luciana Gimenez ou o finado CQC, que adoravam a participação do deputado bizarro. E a culpa não é intrinsecamente do programa, mas é também da gente que gosta de ver bizarrices e figuras exóticas. Elas sempre existiram, aos montes.

Esse tipo de figura bizarra ocupa em nossa sociedade o papel do Bobo da Corte dos tempos medievais. Ele seria "o pior de nós", a figura patética, aquele que está abaixo de nossa inteligência, por menos inteligentes que sejamos. É o papel do palhaço, que faz absurdos usando uma lógica incompreensível, e que nos dá um alento: Podemos ser idiotas, mas tem alguém mais idiota do que nós.

Pedro de Lara, o jurado do programa de auditório do Sílvio Santos era um destes. Representava uma figura errática, com trejeitos estranhos, roupas fora de moda, e seus comentários eram pautados por modelos antiquados de comportamento e às vezes caóticos.

O público adorava odiar o Pedro de Lara. Quando ele se levantava a platéia começava a uivar, jogavam coisas nele. E quanto mais uivavam, mais audiência tinha o programa. Sílvio Santos ganhou muito dinheiro com a audiência odiando o Pedro de Lara.

Mick Jagger tem uma frase emblemática sobre o assunto:

Se minha foto está na capa do jornal tanto faz o que está escrito na página 54.

Paulo Maluf também soube se aproveitar deste fenômeno "falem mal, mas falem de mim". "Rouba, mas faz" é uma variação desta lógica

Hoje existem inúmeros apresentadores de TV e celebridades dispostos a serem este novo tipo de Bobo da Corte, como Sikêra Jr. Mas nenhum gera tamanha capacidade de atração midiática do que o atual presidente.

Ele é, literalmente, o Experimento Social Midiático que saiu do controle, que pulou da tela e invadiu nossa casa, uma mistura de Poltergeist e Gremlins.

Woody Allen fez A Rosa Púrpura do Cairo com um personagem que saía da tela e interagia com o mundo real, mas ele era o galã, o mocinho do filme. O impacto de um vilão pular da tela e sair para aterrorizar a vida das pessoas é coisa recente, e num mundo onde já não há separação entre o que é espetáculo e vida real, se torna impossível não prestar atenção.

Daí mergulhamos no universo do fetiche, diante de nossa impotência em combate-lo, passamos a esmiuçar sua vida, sua roupa, o pão com leite condensado, o sapato, e tudo vira espetáculo.

Já vimos isto no cinema, quando podíamos ir ao cinema. Já vimos isto na política, quando atores como Ronald Reagan e Arnold Schwarzenegger são transformados em políticos. Aqui no Brasil o fenômeno Dória é igual. Como será com Luciano Huck ou mesmo Danilo Gentili candidatos à presidência.

A Caixa de Pandora foi aberta, a quarta parede brechtiana foi definitivamente explodida. E se estamos realmente neste universo onde ficção e realidade não apresentam contornos definidos, infelizmente mergulharemos na busca de algum King Kong para combater o Godzilla nas próximas eleições. Ou vice-e-versa, pois já não há limites claros entre bandidos e mocinhos.

Alessandro Bender 2021

pesquisador do comportamento humano, tendências e arte

pesquisador do comportamento humano, tendências e arte