O Rio das Histórias Tristes

O excessivo autocentramento perante o coletivo e o reforço da rivalidade

Como justificar o injustificável? Como abafar o sentimento de culpa diante de seu próprio erro?

Estas são as estranhas margens do Rio das Histórias Tristes, onde tentamos nos explicar antes de nos desculparmos.

(Existem muitas, mas muitas histórias tristes no Rio das Histórias Tristes, esta é apenas uma, que serve como amálgama de uma cultura que usa subterfúgios psicológicos para se isentar das responsabilidades sociais que tem)

Eu erro. Sei que erro, e assumo meus erros. Já fiz muita bobagem, já pisei muito na bola, mas diante do reconhecimento do erro, assumo.

Quando criança lembro de alguns perrengues que passei na escola, tentando ludibriar professores e coordenadores por atitudes que tomei. É o clássico "professora, eu até fiz a lição de casa, mas o cachorro comeu".

Adolescentes e crianças estão estruturando seus valores morais, e treinando (para aprender e internalizar) os procedimentos que devem ter perante suas decisões e atitudes.

Você tem que entender que:

1-Ele é jovem e ainda não sabe fazer as coisas direito

2-Está passando por uma situação difícil

3-Dormiu mal

4-Os pais estão se separando

etc, etc

Estas são frases que educadores em geral ouvem dos pais de crianças e adolescentes diariamente.

Dizemos que jovens são inconsequentes

Mais do que inconsequentes, os jovens ficam testando os limites de suas ações. Ele vai estressar todos os limites justamente para saber quais são seus limites. E quando não definimos claramente seus limites, ele vai navegar solto pelo mar da inconsequência.

E o que são limites?

Num primeiro momento parecem construções sociais esvaziadas de significado, e talvez sejam nos dias de hoje, já que os limites são linhas invisíveis sistematicamente atravessadas no Brasil.

Mas não são apenas construções sociais esvaziadas, são limites de segurança, por exemplo. Sabemos que crianças não devem assistir filmes de horror, por exemplo. Não só por questões morais, mas por não serem indicados para elas. E crianças não podem colocar a mão no moedor de carne ligado, na tomada ou usar objetos que a possam machucar. Este é o limite.

A elasticidade de valores de cada família não pode definir o que é absolutamente bom ou ruim para seus entes queridos. Existem coisas que as crianças estão limitadas pelo social. Vacina é uma coisa que todas as crianças devem tomar, independentemente da opinião de seus pais.

A existência do limite traz a bilateralidade da linha. Ela vale para que seu filho não ultrapasse uma fronteira ao mesmo tempo que garante que outros (no caso o seu filho) não invadam a minha fronteira (ou do meu filho, no caso).

Quando não entendemos que o limite é para os dois lados, mas imaginamos que o limite se aplica exclusivamente ao meu lado — e pode ser definido pelos meus valores e pela maneira que entendo que devam ser aplicados — o resultado é uma sobreposição de linhas, onde a minha linha do limite não se encaixa perfeitamente na sua. Talvez a minha invada a sua em certas partes, e a sua invada a minha da mesma maneira.

Interessante pensar que a palavra Rivalidade vem de Rivus (Rio). Se minhas terras vão até o rio e as suas terras começam depois do rio, a pergunta é: De quem é o rio?

O rio, neste caso, é a sobreposição de linhas subjetivas nas relações interpessoais e sociais em geral. E no Rio das Histórias Tristes esta sobreposição acontece de maneira sistemática e estrutural (a palavra da moda, desculpa aí pessoal).

Quanto mais as linhas individuais de limites se sobrepõem mais conflitos e rivalidades temos. Se o rio é uma condição física e real que leva à rivalidade, as percepções de onde terminam meus limites e onde começam os dos outros é subjetiva, principalmente num país onde as leis são flexíveis, funcionam em algumas condições e apenas para algumas pessoas.

Em paralelo a isto vemos a individualidade e a imaturidade reinarem quando da definição de nossos limites, como acontece com as crianças e adolescentes. E da mesma maneira que eles, os adultos vão empurrando seus limites para ver até onde conseguem expandir suas individualidades.

Claro que isto deriva de uma falta de senso do coletivo. Claro que isto demonstra que nossa cultura é elástica e permeável, não necessariamente de maneira positiva. É super interessante pensar que buscamos representantes políticos que sejam "linha dura", que coloquem limites, pois a coisa está muito bagunçada e alguém precisa fazer alguma coisa. Mas obviamente quando votamos em alguém para colocar limites pensamos que os outros precisam ser colocados no prumo, não nós.

E por que Histórias Tristes? Por que não assumimos que buscamos vantagens, que pretendemos atropelar o desejo e os limites dos outros. Somos hipócritas e imaturos, e queremos que o mundo compreenda nosso desejo oculto de fazermos o que bem entendemos sem que sejamos punidos por isto.

Daí inventamos histórias tristes e complicadas, como as crianças.

Repare, se um policial for dar uma bronca numa pessoa que parou o carro em fila dupla ele vai ouvir uma história triste, o policial "tem de entender" que aquela pessoa estava com problemas, etc e tal. A pessoa não se desculpa, não se coloca no lugar correto que seria o de "transgressor de limites". E ao fazer isto ele não se enxerga como o problema, e sim como o incompreendido, vítima de uma situação que ninguém tem empatia, invertendo a situação, pelo menos mentalmente.

Enquanto ficarmos inventando histórias tristes não assumiremos nossa responsabilidade perante os limites, perante o outro e perante o coletivo.

Enquanto fizermos isto não amadureceremos como indivíduos, continuaremos o eterno adolescente incompreendido, testando os limites e tentando fazer nossa individualidade se sobrepôr à coletividade.

Ao criarmos estes subterfúgios acabamos projetando no outro o problema, quando na verdade o problema é nosso.

Alessandro Bender 2021

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pesquisador do comportamento humano, tendências e arte

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Alessandro Bender

Alessandro Bender

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