Olhe atentamente para as marquises!

Parte da história está acontecendo bem debaixo do seu nariz

As marquises são um excelente lugar para ficar quando está chovendo. São amplas, altas e geram um espaço ótimo para proteção.

As pessoas em situação de rua descobriram isto faz tempo.

O termo Pessoas em Situação de Rua merece um pouco de atenção. Muita gente que conheço não tem ideia da quantidade de pessoas nesta situação. Acham que é o "mendigo", aquele personagem maltrapilho e fedido, que não fala coisa com coisa, inoportuno, bêbado e pedinte. (óbvio que estou apresentando o personagem que muita gente cria na cabeça, não é assim que enxergo de maneira nenhuma).

Num levantamento de uns dez anos atrás a quantidade de crianças que moraria nas ruas era de aproximadamente três mil.

Do ponto de vista estatístico é um número relativamente baixo, pensando na extensão da cidade e do volume de habitantes. Projetos de acolhida, conselho tutelar e agentes sociais poderiam atuar para minimizar intensamente este número, e provavelmente o fazem. Isto sem contar com as ONGs tão odiadas pela extrema direita (pois roubariam dinheiro público etc etc), que são numerosas e atuam de maneira direta no problema.

Por que então a quantidade de crianças parece menor? Além do fato de chamarem mais a atenção do que "mendigos", que já foram absorvidos pela paisagem urbana e não nos sensibilizam mais, o fato é que existem muito mais crianças em "Situação de Rua" do que as que moram nas ruas.

São crianças que "têm moradia": precária mas têm. Moram em cortiços, em comunidades, em malocas. Elas ficam pela rua muitas vezes para ajudar os pais (entenda-se Mãe, pois o pai sempre some, assunto para outro artigo) a melhorarem a renda da família. Outras vezes são levadas por "mães de rua" para pedirem dinheiro nos faróis, um tipo de exploração de crianças muito comum.

As "pessoas em situação de rua" seguem o mesmo raciocínio. Muita gente tem emprego, subemprego e até moradia, mas o dinheiro não dá para ir e voltar para casa todo dia. Afinal de contas eles moram longe, e o custo do transporte é alto.

Fui exemplificar meu raciocínio para a Pretha, uma pessoa que trabalha comigo lá no centro de SP. Saí do trabalho para entregar uns lanches para o pessoal que estava dormindo debaixo de uma marquise na Avenida São Luis. Ela quis ir junto e ver a cena.

Quando descemos fui na direção de um grupo de pessoas que já conhecia. Quando chegamos o olhar da Pretha era de espanto, afinal de contas ela esperava um grupo de pessoas sujas e mal vestidas. E aquelas pessoas que estavam tentando dormir na marquise estavam todas bem vestidas, cabelo penteado, de cara limpa e barbeados. Três deles são pizzaiolos que trabalham na região e não conseguem voltar para casa todos os dias. Dois deles cabeleireiros.

Quando estiver passando de carro, ar condicionado ligado e vidros fechados, ande mais devagar com o carro, olhe estas pessoas.Não precisa descer do carro e abraçar, como Jesus fala que deveríamos de fazer.

Na fila da sopa, que é entregue por grupos religiosos, vai ver gente saindo do trabalho, ou levando sopa para parentes, pois não tem dinheiro para complementar a janta.

No Bom Prato (comida popular vendida por 2 reais pelo governo em alguns pontos da cidade) vai ver muitos trabalhadores que levam suas marmitas e completam com a comida do local, pois o que tem na marmita é pouco.

Saber que existem estas pessoas, e que não são a escória da sociedade é o primeiro passo para ter uma dimensão maior do que é o Brasil hoje, e em qual condições estamos.

pesquisador do comportamento humano, tendências e arte

pesquisador do comportamento humano, tendências e arte