Os Cruzados do Nióbio

Faça uma pergunta para qualquer amigo ou conhecido sobre um tema complexo. O que é Física Quântica, por exemplo.

Seu conhecido já deve ter alguma opinião formada sobre o que é Física Quântica. Ele provavelmente irá apresentar uma versão simplificada, obtida através de uma colcha de retalhos do que ele ouviu na escola sobre Física, algum conceito residual vindo da figura do Einstein e uma coletânea do que ouviu do termo Quântico em algum vídeo de auto-ajuda no YouTube.

Pelo visto dá para reprogramar o DNA também…

A resposta que seu conhecido der, qualquer que seja a profundidade dela, provavelmente estará errada, ou incompleta.

O Conhecimento também é assim, formado por fragmentos errados ou incompletos. Não há verdades. Apenas suposições temporárias. São alguns milhares de anos de Filosofia sempre chegando a lugar nenhum.

O Conhecimento está mais no debate do que em Ideias Cristalizadas.

A Ciência não pode se dar ao luxo de estar errada, mas sempre é incompleta. Por isto se baseia em pesquisas, e pesquisas embasarão novas pesquisas, criando trilhas de conhecimento, que podem se consolidar ou não.

Um exemplo simples disto são as pesquisas científicas sobre o café. No Século XX o café era considerado algo danoso para a saúde, pelo menos o excesso dele.

Durante décadas os médicos recomendavam precaução com o café.

Hoje os cientistas não são contra o café. Muitos até recomendam como um estimulante saudável no período da manhã.

O mesmo vale para o ovo de galinha, que até pouco tempo atrás era o vilão do colesterol alto. Hoje não é mais, e é recomendado.

Diante de voltas e reviravoltas, num mundo povoado de soluções marqueteiras e milagrosas (alguém aí sabe o que poderiam ser estas esferas de ceramidas que estão no shampoo Seda?), fica muito desconfortável aceitar a impermanência de conceitos e na relatividade de tudo.

Com ceramidas deve ser melhor que Sem ceramidas, assim funciona nossa cabeça

Acabamos, portanto, construindo nossas narrativas existenciais — de credos, valores e procedimentos — através de simplificações rígidas de conceitos complexos e voláteis. É praticamente impossível viver sem nos apegarmos a conceitos, e é mais confortável que achemos que eles são sólidos, mesmo sabendo que não são.

Mario Kimura e seu Cogumelo do Sol

A perigosa mistura de Empreendedorismo, Marketing, Consumo, Influenciadores, Culto à Imagem e Redes Sociais povoou os canais de comunicação com milhares, talvez milhões de Marios Kimuras, Walters Mercados e outras figuras que que no passado faziam merchandising em canais de televisão de baixa audiência (e de baixo custo por inserção).

Ligue Djá!

Não é coincidência que o horário na TV destes vendedores de soluções mágicas tenha sido substituído pelas seitas neopentecostais e sua Teologia da Prosperidade.

O acesso a Deus (ou ao universo místico) sempre foi mediado pela complexidade, pela fé, pelo ritual, pelo envolvimento, principalmente por estar implicado na busca pelo divino.

Quando a mediação se faz pela troca de dinheiro, deixamos de estar implicados, nos tornamos consumidores.

É a mesma coisa quando ficamos com vontade de comer bolo. Se resolvermos cozinhar vai dar trabalho, custa conhecimento, envolvimento e atenção no processo todo. Se simplesmente pegarmos dinheiro e comprarmos um bolo trocamos tudo isto por uma troca simbólica simplificada.

E os YouTubers que ensinam a fazer qualquer coisa de maneira simples, rápida e barata? Não seriam eles os descendentes do Instituto Universal Brasileiro, que tornava qualquer pessoa num profissional qualificado pelo correio?

Os dois obtém resultados financeiros através de gente que quer uma solução simples e rápida para um problema complexo.

Nem adianta clicar, é uma foto. E afinal de contas, por que você quereria aprender por vídeo como construir um avisão?

Outro fator é a questão da obsolescência programável: As coisas são feitas para quebrarem, criando um culto ao novo. O que interessa é a novidade. Aquilo que já é conhecido não tem graça, queremos algo novo, sabor limão.

Um dos problemas do enfrentamento à Pandemia do COVID19 é justamente a solução ser antiga, não há nada de novo. Nossos bisavós já pregavam que em situações como estas precisamos nos alimentar bem, manter resguardo e se tivermos febre tomarmos novalgina.

Quem vai acreditar numa tese tão antiga como esta?

Precisamos de Partículas de Ceramidas Medicinais Mágicas, precisamos de Cogumelos de Nióbio do Sol! Este negócio de "cama e canja de galinha" não tem nada a ver. Precisamos de algo que possamos comprar, consumir, que seja simples, que não nos traga desconforto espiritual, nem existencial.

Não é de se estranhar que estejamos sendo governados por um presidente que se dizia "novidade" no cenário político, em oposição à velha política. Nem que ele se comunique/governe através das redes sociais. E que ele ofereça soluções simples, quase mágicas para os problemas que temos.

Em busca de soluções mágicas, os Cruzados do Nióbio almejam por elas.

A frustração é inevitável. Mas passa. E depois surge algo novo, pois o novo é bom…

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pesquisador do comportamento humano, tendências e arte

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