Pelo que Vale a Pena Morrer?

A impossibilidade da morte heróica

Um amigo me disse — há muito tempo atrás — que se ele descobrisse que estava com uma doença incurável, iria para as trincheiras de alguma revolução/levante para morrer em combate.

Este é um raciocínio antigo, vêm dos gregos. O ideal era morrer jovem e belo. Ficar velho não tinha nada de heróico, nem de belo.

Platão conta a história de um soldado grego, que vai para o campo de batalha, sai de Atenas aplaudido, e no meio da guerra tem uma baita disenteria e é forçado a voltar para o lar, todo sujo. Desonra total.

Devo sofrer de algum transtorno, pois gosto da ideia de um de Gran Finale. Morrer em glória, todos acompanhando o carro fúnebre e dizendo: Nossa, o Bender era um cara mais ou menos, mas na hora de morrer salvou trinta velhinhas de caírem no precipício…

Talvez a ideia de morrer em glória seja uma espécie de redenção da banalidade da vida. Talvez um cristianismo entranhado pensando que com um gesto final elevado anulemos o monte de besteira que fizemos e finalmente cheguemos ao céu.

Também pode ser aquela vontade da sua vida não passar em branco, de deixar um risquinho na eternidade, arranhando a parede e dizendo Eu, eu Existi!

Pelo que vale a pena morrer?

Durante uma catástrofe como a que estamos passando agora, o assunto voltou à minha cabeça.

Tenho tido ataques de ansiedade e nervosismo toda vez que preciso sair de casa. Passo álcool gel, uso máscara, mas fico olhando para cada gesto que faço como se pudesse morrer se colocasse a mão em algo infectado.

Daí fico pensando se tenho medo da morte, e descubro que meu maior medo é o sofrimento e a solidão, coisas que a COVID19 oferece largamente. Sem contar a possibilidade de ser o responsável por transmitir uma doença perigosa para alguém querido, ser o vetor.

Morrer engasgado tomando café da manhã ninguém merece…

Dei raríssimas escapadas desde o confinamento, duas ou três. E todas elas me fizeram refletir sobre morrer por banalidade.

Morrer já é dureza, mas morrer porque foi buscar um suco de melancia na esquina é de doer.

Morrer por que foi levar um ovo de páscoa na casa da sua mãe é uma morte honrosa? Por ter levado uns livros para seus filhos lerem na quarentena é digno? Vale a pena?

Morrer por ter ido lavar a roupa na casa do vizinho pois a sua casa não tem máquina é uma morte digna?

Acho que este estreitamento da morte com a banalidade da vida é o ponto mais sensível que tem me afetado atualmente.

A morte é banal, morremos atropelados, engasgados com uma azeitona, soltando um pum. Queremos criar pelo menos algum sentido para que nossa vida não tenha sido em vão.

Pode ser prepotência querer isto. O legado que deixaremos é impalpável em vida. Poucas pessoas têm a real dimensão da importância de suas vidas e da relevância de sua passagem por este mundo. Sendo assim, é melhor viver e saber escolher seus caminhos e prioridades.

Viver e celebrar a vida é mais importante do que o legado que deixaremos. E talvez, no final das contas, este seja o legado: Saber viver.

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pesquisador do comportamento humano, tendências e arte

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