Qual o problema com as Artes Plásticas?

(Um artigo para iniciantes em Artes)

Não me lembro de quantas vezes, nas últimas décadas, ouvi o questionamento sobre se Arte Abstrata, Conceitual ou qualquer outra que não seja Figurativa seria Arte mesmo.

Aquela velha conversa de "Mas é só um borrão, o cara veio, borrou uma tela e diz que é Arte, e depois vale Milhões".

Se você já parou para pensar sobre isto, este artigo é sob medida para você. (Acho que vou passar o link para todas as pessoas que me perguntarem sobre isto daqui para diante)

Abstração

Para começar, e antes de tudo, é necessário perguntar sobre a sua capacidade (sim, a sua mesmo) de dar valor a pensamentos e coisas abstratas. Um dos fundadores da antiga agência de Publicidade DPZ fazia um interessante comentário sobre o brasileiro e a percepção de valor às ideias.

"Nos Estados Unidos as Ideias são caras e os Carros são baratos. No Brasil é o contrário"

Roberto Dualibi

Temos valores culturais que definem que R$ 200,00 numa calça jeans é barato, e R$ 100,00 num livro é caro. R$ 50,00 para assistir Os Vingadores é caro, e R$ 150,00 no boneco do Thor não é tão caro assim.

Valorizamos mais uma pessoa que nos empresta R$ 1.000,00 para abrir um negócio do que a pessoa que deu a ideia do negócio. Sendo assim, damos pouco valor ao intangível e tendemos a dar muito valor ao tangível.

Nosso pensamento padrão é orientado para o concreto, o realizável, o palpável. Por isto pouco valor nas atividades intelectuais abstratas. Um engenheiro é mais valorizado do que um professor.

Para apreciarmos a arte contemporânea precisamos de uma certa dose de pensamento abstrato, entender que a representação do mundo (no caso a pintura) hoje se liquefez, e as temáticas e técnicas encostam em questões complexas, não tão óbvias como a arte figurativa fazia antigamente.

Distanciamento

A questão da fruição estética é outro item a ser analisado. Quando observamos um GIF de um gatinho dando pulinhos conseguimos nos encantar imediatamente. Nosso contato com aquele conteúdo é direto e reto. Não precisamos pensar ou compreender nenhuma bula para poder saber se gostamos ou não do gatinho envolto em um novelo de lã ou fazendo pequenas palhaçadas.

Se utilizarmos a mesma lógica para nos aproximarmos da obra de Eduardo Kac e seus experimentos com Arte Genética dificilmente teremos a mesma fruição estética. Kac manipula o DNA de animais e planta. Uma famosa obra dele foi quando alterou o DNA de um coelho para que ele se tornasse fosforescente e a expo era uma sala toda escura e o bicho brilhando lá dentro.

Ao observarmos uma obra destas, passamos por um processo de deslocamento, acontece um ôpa, que p… é esta? e precisamos nos distanciar da experiência para termos uma fruição mais conceitual, por sinal da mesma maneira que quando observamos uma obra e perguntamos se ela é arte ou não por parecer um jato de tinta abstrato esguichado na parede.

Se antes precisávamos nos aproximar de uma obra para experienciar a fruição, agora nossa mente precisa se afastar da obra, criar uma certa distância conceitual e teórica e tentar entender que raios o artista tinha na cabeça para fazer uma coisa destas.

E isto incomoda. E parte deste incômodo é muito relevante para podermos entender por onde transita a arte nos dias de hoje.

Até aí tudo certo né? Está dentro daquilo que consideramos que p… é esta das artes conceituais pós Século XX. Diante disto o observador incauto olha e diz: O cabra foi lá, pegou um feijão e plantou numa mesinha com um tabuleiro de xadrez.

O que o observador não fez foi ler a legenda da obra, aquele papelzinho que sempre está na entrada de uma exposição.

Kac se inspirou na batalha entre computador e humanos pela supremacia no jogo de xadrez.

O artista analisou todos os movimentos do jogo de xadrez entre Kasparov e Deep Blue, um supercomputador desenvolvido especialmente para jogar xadrez. Kasparov venceu as duas primeiras, e na terceira rodada passou a perder.

Kac tabulou a sequência de jogadas do Deep Blue e a transformou em uma lógica numérica (P3> C4, R1> B2 e assim por diante). Esta sequência foi inserida no DNA de uma planta, gerando uma mutação. Esta mutação foi colocada no tabuleiro exatamente no local onde Kasparov perdeu o jogo. E esta é a obra. Mas se não soubermos o processo de trabalho do artista dificilmente seremos capazes de compreender e aproveitar ao máximo a experiência artística.

De onde vêm este problema?

Vem do Marcel Duchamp, ora bolas. Ou pelo menos ele é um marco da confusão que acontece nas Artes Plásticas.

Duchamp cria, nos anos 1930, o conceito de Ready Made. A obra acima é uma das que mais chamaram a atenção na época. Basicamente, um urinol catado em algum lugar e levado para dentro de uma sala de exposições.

O que Duchamp propõe, além da ressignificação ( o Urinol vira Fonte, no caso) é que algo já pronto, e sem a manipulação artesanal, pode ser transformada em arte pelo fato de alguém defini-la como Arte. Se eu pego qualquer coisa e coloco num espaço expositivo e digo que é arte, arte se torna.

Este fenômeno não deveria dar tanto pano para manga e tanta discussão, já que o pensamento simbólico e abstrato é constatável em crianças pequenas, que definem que uma meia é uma boneca e passam a trata-la como tal.

A representação simbólica também foi constatada em primatas. Koko, a gorila que conviveu décadas com seus cuidadores e se comunicava através da linguagem de Libras (aparentemente a estrutura fonadora dos primatas difere da nossa, um dos impeditivos deles se comunicarem através de sons mais complexos), adorava desenhar e pintar.

Certa vez Koko tinha acabado uma pintura e sua cuidadora apontou para um emaranhado de pinceladas coloridas que a gorila tinha feito e disse em Libras: Desenho. E Koko respondeu: Pássaro. A cuidadora insistiu, mas Koko continuou explicando que era um pássaro.

O problema que se apresenta aos olhos do observador iniciante é

Se qualquer coisa pode ser qualquer coisa, qual o trabalho do artista? Afinal de contas, ele apenas pegou um cacareco e colocou lá, não manipulou, não precisou de estudos nem habilidades manuais para realizar aquilo.

Duchamp, ao estabelecer o Ready Made, deu um nó nas Artes Plásticas. A coisa já estava um pouco confusa depois dos Impressionistas, Abstracionistas e tudo da virada do século — Freud, Darwin, Einstein. O Ready Made arrematou e embananou geral.

Curiosamente em outras áreas a coisa se desenvolveu, continuou depois da abstração total. Teatro, Literatura, Música, todas as áreas tiveram o seu "Duchamp" por assim dizer. Mas parece que elas falaram algo tipo Ok, têm isto muito louco e abstrato, beleza, incorpora e vamos para frente.

No caso das Artes Plásticas, parece que o disco riscou. O público em geral não estava preparado para este tipo de questão quando se trata no universo imagético. Cem anos depois continuamos com este espinho de peixe entalado na garganta.

Arte serve para alguma coisa, afinal?

Gosto muito desta frase, apesar de não saber quem é o tal Bears que o Neil deGrasse Tyson cita:

Criatividade que satisfaz e afirma sua visão de mundo é Entretenimento. Criatividade que muda e rompe com sua visão de mundo é Arte.

Na versão brazuca, podemos dar voz ao bom e velho Chacrinha:

Eu não vim aqui para explicar, eu vim aqui para confundir!

Talvez seja uma boa maneira de decidir se gostou ou não de uma exposição: Se ela te incomodou de alguma maneira, se ela te tirou de sua visão tradicional e te levou a uma reflexão que nunca imaginou que poderia ter, talvez esta tenha sido uma boa exposição.

Alessandro Bender

pesquisador do comportamento humano, tendências e arte