[Sobre o Embrutecimento] Embrutecemos. Parte é responsabilidade do esgarçamento do tecido social, e acho que a visão sócio-econômica é confortante mas não completa. Em resumo: Em épocas de crises económicas as pessoas tendem a pensar em salvar a si mesmas e que se lasque o próximo. Assim vemos muitos amigos ao redor reclamando que tomaram um toco ou foram enrolados por pessoas que consideravam de confiança. É o salve-se quem puder na versão selvagem.
Mas acho que tem mais coisa por aí além da questão da crise financeira.
Almocei com um amigo recém separado que estava inconsolável. E ele me trouxe uma reflexão interessante.
“Você já viu alguém mandar consertar geladeira nos dias de hoje? Sabe aquela geladeira sólida, antiga, de confiança, que nunca quebra mas que deu um problema faz pouco tempo? Então, ninguém conserta. Fica esperando o carreteiro passar, entrega a geladeira velha para o cara e vai até as Casas Bahia e compra em duzentas prestações uma geladeira que vai dar problema assim que acabar a garantia…As pessoas estão muito imediatistas, não querem mais consertar as coisas, querem se livrar delas”.
Evidentemente que a geladeira era, no caso, o meu amigo, que se sentiu descartado pela companheira.
Gosto do raciocínio dele, me lembra um pouco o Bauman e as questões da sociedade líquida em que vivemos. Por sinal tenho visto muitos relacionamentos se desfazendo, gente sendo “descartada” como a geladeira da história. E a maioria das pessoas que descartaram seus parceiros entram numa espécie de euforia. Como se dissessem “Ufa, me livrei de um problema”. E o problema, no caso, não é um relacionamento mais ou menos problemático, mas um sobrepeso, um confrontamento com a dura realidade que é se relacionar e construir uma vida a dois.
Simultaneamente vejo um vazio nos olhos de algumas pessoas que deram este mergulho. Conversei com algumas bem próximas nos últimos tempos. Que já tinham passado pela fase do desbunde e encaram agora um Nada com que elas têm de lidar.
Pode não parecer, mas viver na superficialidade e na pseudo-leveza do descompromisso nada mais é que embrutecimento. Perdemos a sensibilidade para o delicado e o frágil e nos viciamos no adrenal e no momento . O Baudrillard chama isto de sentimento de "pós-orgia”: Depois de tudo feito, o que fazer?
Do ponto de vista político (partidário na verdade) nem preciso dizer o quanto embrutecemos. Quando conseguimos criar justificativas para que uma pessoa seja assassinada a sangue-frio já deixamos qualquer resíduo de sutileza tombado no chão.
Nós que transitamos no universo da arte e que produzimos conteúdos delicados e sutis estamos mais do que assustados: Fomos simplesmente colocados de escanteio. Não há fruição de arte, nem poéticas: Há apenas engajamento superficial e espetaculoso. Vamos à feira orgânica e nos apropriamos momentaneamente do hashtag “orgânico”. para depois continuarmos a não fazer coleta seletiva. Compramos produtos que tenham evidente expressão relacionada à coisas que não realizamos. Agimos como a fábrica de cigarros que realiza projetos sociais para crianças com câncer. Atenuamos levemente nosso sentimento de culpa para continuarmos embrutecendo, comendo Mc Donalds no Mc Dia Feliz pois assim não sentimos culpa de fazermos parte de um todo bruto.
(Minha foto faz referência a um dos textos chave do teatro do absurdo, “O Rinoceronte”, que na época foi compreendido como uma metáfora do nazismo e acredito que hoje seja a metáfora de nosso embrutecimento. Sinopse básica: Num determinado momento, sem razão aparente, todos os habitantes de uma pequena cidade tornam-se gradualmente rinocerontes. Sem explicação, sem nada. O Rinoceronte que habita as almas por aí apareceu. Conviva com ele)

pesquisador do comportamento humano, tendências e arte

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