Surge a Alma Insubordinada

Para ler ouvindo Elis

Diante de situações críticas como a que vivemos — acordando, vivendo e dormindo na agonia e na loucura — algumas máscaras caem.

Quando temos de nos confrontar com dilemas de vida e morte, de saúde e doença, se evidenciam os valores das pessoas, das estruturas e dos grupos.

Não tema o desconforto com o estranhamento social que está sentindo. O isolamento não é de todo ruim. Ele desvela estruturas e suas rachaduras.

Se você têm um mínimo de conforto físico, ou pelo menos um conforto semelhante ao de antes da pandemia, está tudo certo.

Se você já estava duro, queria tomar cerveja gringa mas só tomava latão, nada mudou. Se dormia num colchão velho e continua dormindo nele, nada mudou.

Mas há um desconforto evidente — além do óbvio, de achar que vai morrer, coisa que tinha esquecido e seguia na negação: Há um desconforto em relação aos procedimentos.

Devo realmente tomar banho todos os dias? Preciso realmente escovar os dentes? Devo ser pontual em meus compromissos? Devo manter todas as pontas de minha teia de afetos tensas e aquecidas? Devo subordinação às organizações e aos procedimentos normativos?

Por que deveria fazer isto?

Sabíamos que não precisávamos, mas antigamente o cenário era outro. As chamadas situações críticas obedeciam a outros critérios, mais sublimados, mesmo que não percebêssemos. Ter um emprego era uma questão de vida e morte, mas não da maneira como entendemos vida e morte agora. Da mesma maneira os impostos, ou os códigos sociais ou ser popular.

Questão de vida e morte hoje são, essencialmente, questão de Vida ou Morte.

E isto abre uma janela interessante, que é a da Plasticidade Social e a Plasticidade do Indivíduo, para não dizer Adaptabilidade.

O que isto pode significar? Que uma parte da sociedade, e uma parte dos indivíduos (o que são coisas totalmente diferentes atualmente) serão tocados por este cenário. Que desvela alguns véus sociais.

Seu chefe realmente quer que você volte ao trabalho? Sua namorada realmente não consegue ficar algumas semanas sem te ver? Seu estilo de vida te impede de fazer algumas restrições temporárias?

Não somos a grande maioria das pessoas no Brasil, somos privilegiados. Não somos o pessoal da cracolândia que rompeu todos os laços e está verdadeiramente vulnerável.

Somos capazes de nos adaptar, viver outra vida. Mas para isto precisamos estar vivos, fisicamente e espiritualmente. Nosso âmago não pode estar trincado. E se sente que ele trincou, infelizmente ele deve ter rachado antes, e só agora você percebeu.

Estar encurralado no canto do ringue te obriga a pensar nestas coisas. Se antes você podia aceitar ritos sociais sem ter de pensar nos reais interesses que eles apresentavam, agora você é obrigado. Não há como fugir. Se tem uma coisa que você não vai conseguir evitar é pensar em sua situação. O Modo Sobrevivência finalmente se revelou, de maneira crua. E quando as máscaras caem os interesses e valores dos outros se tornam dolorosamente claros.

O que você vai fazer diante disto?

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pesquisador do comportamento humano, tendências e arte

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